Carole Bethuel
Carole Bethuel

Crítica: 'Titane' seduz espectador sem medo do novo, mas assusta conservador

Filme debate alguns dos principais temas da nossa contemporaneidade, como sexualidade e tecnologia

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estadão

27 de janeiro de 2022 | 14h40

Titane, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é um filme desconcertante - no melhor sentido do termo. Tira o espectador do seu centro, da sua “zona de conforto”, como se diz. 

A história começa na infância de Alexia, quando ela sofre um acidente no carro da família e recebe um implante de titânio (daí o título) para se recuperar dos ferimentos. A cirurgia e o implante não são inócuos e a garota sofre profundas modificações de personalidade a partir de então.

 Nesse começo, a violência, quase trash, impera. Tememos pelo pior. Mas virão reviravoltas, que levam a narrativa para outras direções. Outras dimensões, poderia se dizer. 

Basta pensar que Alexia, já jovem (Agathe Rousselle), perseguida pela polícia, vai buscar refúgio onde menos se espera. Entra em cena Vincent (Vincent Lindon), um bombeiro, líder de uma equipe que se parece mais a uma seita. Vincent tem um tormento na vida. Tenta encontrar um filho desaparecido há muito tempo. 

Esse imbróglio narrativo se dá em tom altissonante, com a diretora Julia Ducournau apostando nas notas mais agudas da paleta cinematográfica. Tudo é over, das imagens à música, e conduz o espectador nessa ópera delirante, que no entanto debate alguns dos principais temas da nossa contemporaneidade. A ênfase de Titane é no corpo físico, trabalho sensorial que envolve a mutação dos corpos de seus dois protagonistas,  Alexia e Vincent. Num caso, a transexualidade; no outro, a deformação por anabolizantes.

Mas não se trata apenas do corpo físico e da violência em estado bruto, o que tornaria tudo estéril, afinal. Tudo se desdobra em outros planos como a sexualidade não-binária, a paternidade, o sentimento filial e, por fim, a maternidade, nunca endeusada, mas cujo caráter milagroso dá nova tonalidade a esta história em princípio soturna. Tudo combina-se também à  problemática contemporânea dos diversos implantes tecnológicos à disposição (os celulares são os mais evidentes), e que alteram o que se poderia chamar de “natureza humana”. Natureza sempre em mutação, mas talvez nunca acelerada como hoje.

É possível encontrar alguns antecedentes, ou referências, para Titane. A mais óbvia - e por isso mais certeira - em Crash (1996), de David Cronenberg, pela associação entre automóveis e sexualidade. Por acaso, há um excelente filme brasileiro nesse mesmo filão, Carro Rei, de Renata Pinheiro, com uma soberba interpretação de Matheus Nachtergaele. Prova de que o mal-estar no mundo contemporâneo pode inspirar obras aparentadas, sem que uma saiba da outra. 

Outra referência um tanto mais longínqua é a obra-prima de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica (1971), inspirada no romance distópico de Anthony Burgess. Nos dois casos - Laranja Mecânica e Titane - uma certa estetização da violência vem como resposta a mundos carentes de referências mais estáveis. A trilha sonora de Laranja é o ápice de sutileza transformada em incômodo, saída do sintetizador de Walter Carlos (hoje Wendy Carlos). Em Titane, tudo é fora de medida, inclusive a trilha de Jim Williams. 

Titane enfrenta essa encruzilhada de linguagens cinematográficas, e também de questões e impasses que, em seu registro alegórico, dizem respeito a cada um de nós. O filme tem tudo para seduzir o espectador sem medo do novo e assustar os mais conservadores. 

Cotação: ÓTIMO

 

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