Nem de Tal/Estadão - 19/11/1986
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Crítica: Simonal viveu num tempo político tóxico e de racismo enrustido

O esforço do filme 'Simonal', e do intérprete do cantor, Fabrício Boliveira, é o de provar que Simonal sofreu seu calvário unicamente por ser negro, rico, talentoso e abusado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2019 | 03h00

Basicamente Simonal, de Leonardo Domingues, é um filme honesto. É verdade que desloca a problemática política em favor de questões raciais – mais em evidência hoje do que quando os fatos se deram. 

Os fatos – ou talvez “o” fato – a marcar a carreira do grande cantor e entertainer foi a famosa “prensa” em seu contador, aplicada a seu pedido por agentes da polícia política dos quais era amigo. No ambiente artístico e intelectual, e naquele tempo de ditadura, isso não se perdoava, e Simonal teve a carreira comprometida. 

No entanto, o esforço do filme, e do intérprete do cantor, Fabrício Boliveira, dá-se no sentido de mostrar que Simonal sofreu seu calvário unicamente por ser negro. A tese – vale a repetição – soa mais plausível quando questões raciais e identitárias encontram-se na ordem do dia. E não é descabida. Wilson Simonal, rico e abusado, dono de imenso talento, incomodava determinados setores de uma sociedade racista e enrustida. A soma desse racismo estrutural e do ambiente político tóxico, próprio das ditaduras, decretaram o fim de Simonal. A linha escolhida pelo filme privilegiou uma das vertentes. Por isso é incompleto, do ponto de vista histórico e conceitual. 

Tem outra série de qualidades. A começar pelo manejo da linguagem cinematográfica. Por exemplo, usa um registro fotográfico claro na época de ascensão, que escurece durante a depressão e a queda do ídolo. Manipula bem o registro musical, universo no qual o personagem se movia. Boliveira, embora não se pareça fisicamente, faz um Simonal muito crível. Também marcante Isis Valverde como sua esposa, Tereza. No entanto, temos certa dificuldade em reconhecer em Leandro Hassum o produtor Carlos Imperial, rei da pilantragem. 

Mas é sobretudo no registro de câmera que o filme atinge seus melhores momentos – principalmente em dois planos-sequência (isto é, sem cortes), que definem momentos-chave na trajetória do cantor. Um, o de início, quando um grupo de amigos tenta reabilitá-lo perante seu público. Outro, quando Simonal mostra seu raro domínio de auditório. 

Seu diretor diz que se inspirou em sequências exemplares de Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, e Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson. É isso mesmo: aprende-se a fazer observando o trabalho dos mestres. O desfecho também é muito forte. 

Nada disso é gratuito ou ostentação técnica barata. Expressa a ginga desse rei do balanço que ao se defrontar com sua hybris, sua arrogância, torna-se vítima de um tempo em que arbitrariedades podiam ser cometidas ao arrepio da lei, dependendo de quais fossem seus amigos da hora. Para de fato compreender Simonal, o contexto é indispensável. 

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