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Crítica: Sentimentalismo faz parte da alma italiana

Giuseppe Tornatore cria uma estrutura romanesca para 'Baaria' e faz uma poética reconstrução histórica

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

27 de novembro de 2009 | 04h00

Nem Giuseppe Tornatore consegue explicar como venceu o maior desafio de Baaria. O filme atravessa décadas da história italiana acompanhando um personagem da mesma região em que ele nasceu. Num determinado momento, próximo do desfecho, o herói retrocede no tempo, volta a ser um menino, depois que já o seguimos como homem. E ele se pergunta se está sonhando? Ou quando sonhou - se antes ou agora? Como se constrói esse clima num filme?

 

"Foi algo intencional e muito buscado. Mas seria complicado explicar como se filma para atingir esse resultado", Tornatore tenta justificar. Baaria foi recebido meio a pedradas no Festival de Veneza. Os críticos dividiram-se entre achá-lo sentimental, excessivo e houve os que reclamaram da simplificação histórica que o diretor estaria propondo para falar da herança comunista na Itália. Como é difícil falar sobre o comunismo na Itália sem fazer referência ao seu reverso, o fascismo, ambos são os polos da trajetória do herói interpretado por Francesco Scianna.

 

Durante todo o tempo, ele é o militante de origem modesta, que vai galgando, ou tentando galgar, postos na hierarquia do partido. Mas não é fácil. Não é considerado suficientemente letrado. O próprio filho se envergonha, num determinado momento, quando seu pai é chamado de reformista. Ele cobra do pai o que isso significa, como cobra da avó o que lhe parece incompreensível - ela vive às turras com o genro e não é comunista, mas mesmo assim faz campanha contra ele. Por quê? Porque seu ódio maior é pelos mafiosos fascistas que executaram o pai dela.

 

Baaria é longo - tem duas horas e meia de duração, cobre vários períodos e tem centenas de personagens. Assemelha-se a um filme-rio, com uma estrutura romanesca. O filme foi indicado pela Itália para representar o país, pleiteando uma vaga no próximo Oscar. O elogio de Silvio Berlusconi a Baaria prestou um desserviço ao filme, pelo menos junto à crítica. A obra é barroca e não há nada mais barroco que este palácio do século 17, com sua estatuária de figuras meio monstruosas. Ali se roda um filme num determinado momento - O Siciliano, de Alberto Lattuada, com Alberto Sordi.

 

A atriz era uma brasileira, Norma Bengell, que fazia a mulher do protagonista. Tornatore admira-se. Vero? Na época, ele tinha 4 anos e não se lembra de nada. É uma das lembranças da sua região - e infância - que, na verdade, são reconstruções poéticas. Baaria inicia nesta sexta, 27, a retrospectiva do diretor, no HSBC Belas Artes. Sua exibição será precedida pela de Cinema Paradiso. Os dois filmes têm tudo - ou muito - a ver. Tornatore chega a dizer que Cinema Paradiso chega a ser, ou poderia ser, parte de Baaria. Veja-os assim e a fruição será mais completa. O próprio sentimentalismo de que o diretor costuma ser acusado faz parte da alma italiana. Verdi e Luchino Visconti amavam o melodrama.

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