Warner Bros. Pictures / AP
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Crítica: 'Rei Arthur', de Guy Ritchie, reconta o mito do herói da espada forjado no bordel

Ritchie não tem afinidade com superpoderes. Não lhe interessam. Seu personagem por excelência está longe de ser anônimo, mas em geral se faz herói de si mesmo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2017 | 07h00

Nos últimos anos, a parceria de Guy Ritchie com a Warner tem trazido ao Brasil astros como Robert Downey Jr., Henry Cavill e Armie Hammer e, agora, Charles Hunnam, para ajudar a promover Sherlock Holmes, O Agente da U.N.C.L.E e Rei Arthur – A Lenda da Espada. Ritchie, ou a bossa de narrar.

Numa série de filmes desde Revólver e Rock’n’Rolla – A Grande Roubada, ele impôs um gosto particular por personagens do submundo (ou da ‘margem’), associado a um particular estilo. Ritchie gosta de anunciar a cena em câmera lenta para depois filmá-la acelerada. Uma curiosa construção/desconstrução, ou desconstrução/construção, que virou assinatura.

Em Arthur, o rei criado no bordel anuncia que vai fazer um acordo com a nobreza para depor o tirano... E antecipa toda a chacota que terá de ouvir, por ser quem é. Guy Ritchie acerta, mais uma vez. Acerta sempre?

O cinema contou muitas vezes a história do mítico rei Arthur. De Os Cavaleiros da Távola Redonda (Richard Thorpe, 1953) a Lancelot, o Primeiro Cavaleiro (Jerry Zucker, 1995) e Rei Arthur (Antoine Fuqua, 2004), o mito arthuriano nunca deixou de atiçar as imaginações. Todos os gêneros e formatos já foram tentados – animação, fantástico, épico, musical, romântico.

Nem os autores mais exigentes (experimentais?) resistiram – Robert Bresson, Eric Rohmer. John Boorman em Excalibur.

Muita gente arrisca que Guy Ritchie daria um grande diretor de super-heróis. A Warner poderia integrá-lo facilmente ao universo DC. Facilmente é força de expressão. Talvez já tenha tentado. Melhor desistir. Olhem os filmes – o próximo será Aladim.

Ritchie não tem afinidade com superpoderes. Não lhe interessam. Seu personagem por excelência está longe de ser anônimo, mas em geral se faz herói de si mesmo.

Sherlock possui a força do raciocínio e da persuasão. Arthur tem a força física, e a malícia. A Vortigern/Jude Law, que matou seus pais e, à força de magia, se consolidou como rei tirano, ele agradece a experiência no bordel. É a chave do novo Arthur. A mãe santa cujo fantasma o obceca nos sonhos e as p..., que defende galantemente.

A mulher é a grande ausente de Rei Arthur – A Lenda da Espada. Aparece pontualmente. Circunstancialmente. A maga, Astrid Bergès-Frisbey – a sereia de Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas –, é assexuada.

O filme termina com a construção da Távola Redonda, e essa utopia, você sabe, o próprio cinema a desconstruiu, será destruída pela mulher. O eterno feminino. O triângulo Arthur/Guinevere/Lancelot. A cada um seu Arthur. O de Fuqua, Clive Owen, era um antigo centurião romano que se uniu ao povo da floresta para combater os bárbaros. Charlie Hunnam, ele vem do bordel. A mais baixa extração, mas a espada, o mito, irá reclamá-lo.

Rei Arthur talvez tenha efeitos demais – a torre, sobre a qual se assenta o poder de Vortigern. Que são aquelas criaturas na sua base? Reclamam o sacrifício – das mulheres, sejam a esposa ou a filha. O rei é canalha. Tudo sacrifica. Arthur vai transformar em cavaleiros os que, como ele, vieram de baixo, do nada. Bedivere, Bill Ensaboado.

Sua máxima – por que cultivar inimigos se a gente pode fazer amigos? E assim se construiu a grandeza da Inglaterra, segundo Guy Ritchie. Para o público em busca de diversão é (quase) perfeito. Espere – aquele guarda na cena da espada, quando é desembainhada da pedra, não é David Beckham? É David Beckham.

Guy Ritchie é pop. Adora o jogo das celebridades. E Charlie Hunnam. Anote. É o ano dele. Em mais algumas semanas, será a estreia do James Gray, A Cidade Perdida de Z. Charlie Hunnam como o aventureiro Percival (Percy) Fawcett, que se perdeu na Amazônia. Outro mito.

É o cinema que não desiste de nos fazer sonhar.

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