Fábio Braga / Dueto Produções
Fábio Braga / Dueto Produções

Crítica: 'Paraíso Perdido' é um espaço para sonhar, mas também para sentir a vida

Neste projeto de Monique Gardenberg sente-se um respiro feminino que busca abrigar os contrários e não tensioná-los além do suportável

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 06h01

Paraíso Perdido é o nome de uma boate. Mas não apenas. É o emblema de algo recôndito, escondido, uma utopia preservada em meio ao seu contrário, a distopia generalizada. É, com seus conflitos, um espaço de afetos e entendimentos. 

Daí a oposição, logo explicitada, entre o acolhimento interior e o espaço externo, a rua, onde a transexual Imã (Jaloo) é agredida de forma gratuita e covarde. Por que se agride alguém desse modo, quais são as motivações do agressor senão o mal-estar provocado pelo “diferente”.

Que, talvez, evoque desejos próprios do agressor, jamais confessados, sequer para si próprio. Não estamos vivendo um clima desses hoje em dia, no Brasil e no mundo? O horror diante do Outro que, por paradoxo, se parece muito a nós mesmos? 

Em todo caso, o Paraíso Perdido é esse espaço de exceção num mundo conturbado. Não por acaso, o dono do lugar, José (Erasmo Carlos) diz para o público que, lá dentro, se esqueça de sua vida. As pessoas vão lá para sonhar, para colocar entre parênteses vidas que sentem pesadas demais. O Paraíso Perdido evoca o espaço de um sonho. 

+++ Filme ‘Paraíso Perdido’, de Monique Gardenberg, faz da música brega seu ator principal

E também um espaço de tolerância em que, se contradições existem, também existe um ambiente em que os conflitos podem ser absorvidos e eventualmente resolvidos. 

De qualquer forma, neste projeto de Monique Gardenberg sente-se um respiro feminino que busca abrigar os contrários e não tensioná-los além do suportável. Essa disposição vai da naturalidade em que as “novas sexualidades” (que aliás nada têm de novas) encontram abrigo, como a fruição musical de um gênero estigmatizado - o “romântico” ou “brega”.

A maneira como as músicas do tal repertório brega são interpretadas e o ambiente em que são ouvidas as tornam de fato muito bonitas. E tocantes. Inclusive porque o contexto se dá sob a luz cálida do fotógrafo Pedro Farkas, um dos responsáveis pela beleza do filme. 

Neste que é provavelmente seu melhor trabalho, Monique encontra o equilíbrio justo entre o erotismo, o romance e o comentário social. Ambientada no Baixo Augusta, a história se vale de fato desse ar boêmio e ilusório, no qual a brutalidade do cotidiano se encontra em estado de suspensão pelo período de uma noite. 

Ao mesmo tempo, consegue puxar, pelos bastidores, os conflitos (alguns bem sérios) em que os personagens estão enredados. Puxa os fios de maneira delicada, porém firme. Até o momento em que um desses impasses parece insolúvel e prestes a explodir. Desse modo, calibra o desenrolar da trama nesse espaço entre o sonho e a realidade, entre o desespero e a esperança. 

A solução, se ela existe, não é dada de imediato, e nem de mão beijada ao espectador. Pode ser que este sinta que aquela vida projetada na tela, que lhe parece a princípio um tanto artificial, seja mais natural que a vida, dita real, em que está submergido. Há algo de Calderón de La Barca nessa imersão do sonho que, por paradoxo, nos aproxima da realidade (“Que toda vida é sonho, e os sonhos, sonhos são” )

Ou, talvez, seja apenas evocação singela daquilo que falta ao real para que a existência entre nós seja mais completa, menos complexa, mais feliz. 

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