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Crítica: 'Os Miseráveis' é manifesto contra a injustiça inspirado em Victor Hugo

Filme do diretor Ladj Ly tem o cuidado em evitar o maniqueísmo: não se endeusa e não se vilaniza quem quer que seja

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2020 | 06h00

Victor Hugo é inspiração para o filme de Ladj Ly. O título – Os Miseráveis – é emprestado do mais famoso livro de Hugo. Ambienta-se em Montfermeil, periferia de Paris, também “locação” do romance. E, claro, fala da injustiça social, tema recorrente de Hugo, para quem o ambiente é que decide e não uma hipotética “natureza” que levaria alguns à virtude e outros ao crime. Sua frase famosa também é citada: “Meus amigos, nunca digam que há plantas más ou homens maus. O que há são maus cultivadores”.

Portanto, é de uma visão de mundo humanista que estamos falando e não do contemporâneo pesadelo neoliberal, o da meritocracia, do empreendedorismo e do seu exército de “descartáveis” da sociedade. 

No entanto, não há qualquer pieguice nem mesmo romantismo na maneira como Ladj Ly, francês nascido no Mali, descreve seu ambiente. Há um preâmbulo, com Paris em festa, comemorando sua segunda Copa do Mundo, conquistada na Rússia em 2018. A seleção francesa é multirracial, assim como era aquela que ganhou a primeira Copa, em 1998, contra o Brasil. Essa característica levou muita gente a crer que a questão racial na França estaria resolvida, ou pelo menos bem encaminhada. Se a seleção que representava os franceses continha uma maioria de negros e árabes, como admitir que o país continuasse racista? E, no entanto…

O grupo de garotos termina de comemorar o título mundial em paisagens amenas como a Torre Eiffel e a avenida dos Champs Elysées, e agora é hora de voltar para casa, Montfermeil. Lá o ambiente é bem diferente. Não a pobreza total, a miséria que conhecemos aqui, mas a aspereza da vida, a falta de perspectivas, a aridez das ruas e dos HLMs, os prédios populares. As crianças ficam pelas ruas, em grupos. O ambiente parece meio barra pesada e há um chefão que se encarrega de manter o equilíbrio entre moradores e gerenciar conflitos. Ele é chamado de “maire” (prefeito) e não há qualquer ironia nisso: representa o poder de fato. Apenas o divide um pouco com Salah, que viveu o inferno do crime e das drogas, tomou outro rumo na vida, tornou-se dono de bar e agora é uma autoridade moral do local. 

Um dos trunfos do filme é essa descrição minuciosa da estrutura da comunidade. Ladj Ly a conhece muito bem. Mora lá. O “prefeito” e Salah são personagens reais. Assim como os meninos. Um deles, o que opera o drone que terá importância vital na trama, é seu filho. Toda essa intimidade com o meio empresta autenticidade ao filme. 

Há o cuidado em evitar o maniqueísmo. Não se endeusa e não se vilaniza quem quer que seja. Nem mesmo o grupo de policiais, o outro polo da história. Sim, há o “tira bom”, Gwada (Djibril Zonga), o “mau”, Chris (Alexis Manenti) e o recém-chegado, Pento (Damien Bonnard). Mas tudo é mais complexo, tanto na relação que estabelecem com a comunidade quanto entre eles. Não há heróis nem há vilões – e eles parecem tão vítimas da injustiça social quanto os moradores de Montfermeil. 

Toda essa complexidade se expressa, ou melhor, explode num clima de tensão e truculência muito bem criado. O desfecho é aberto, sinal ético de que a esperança pode ainda existir em meio a tanto ódio e tanta ternura. 

Veja o trailer de 'Os Miseráveis':

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