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Crítica: ‘O Poço’ é ficção distópica sem talento

Longa do espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, disponível na Netflix, é desagradável, mas sem importância

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 05h00
Atualizado 05 de abril de 2020 | 14h15

Imagine uma prisão vertical com centenas de andares. Em cada piso, há dois prisioneiros. No meio, um poço pelo qual passa um elevador trazendo alimento. Ele para em cada andar por um tempo determinado, dois minutos apenas. As pessoas comem o que podem. É proibido armazenar. Os de cima têm toda a comida à disposição e podem se empanturrar. À medida que o elevador desce, vai sobrando cada vez menos. A partir de certo andar, as pessoas têm de se contentar com restos. Não fica nada para os de baixo. Assim é o filme espanhol O Poço, um dos mais acessados na Netflix nos últimos dias. 



Como você pode ver, o filme do estreante em longas-metragens Galder Gaztelu-Urrutia é uma ficção distópica com ares de crítica à desigualdade social. Imagina um dispositivo um tanto impensável para falar de algo concreto, que existe em praticamente qualquer sociedade do mundo contemporâneo. Resumindo: enquanto uns poucos comem demais, o resto morre de fome. Não há equilíbrio. 

O projeto tem outras implicações. Veja-se, por exemplo, o personagem principal, a partir do qual a trama se desenvolve, Goreng (Ivan Massagué). Como cada prisioneiro tem o direito de levar consigo um objeto do mundo exterior, ele optou por um volume do romance Dom Quixote, de Cervantes. Goreng tem por companheiro de cela um homem mais velho, Trimagasi (Zorion Eguileor). Experiente, Trimagasi escolheu levar consigo uma faca de guerra, bem afiada. Num ambiente desses, o que vale mais, cultura literária ou uma boa arma branca?

Há outros detalhes. Os prisioneiros trocam de parceiros e de andar, aleatoriamente. Podem subir ou descer. Na mudança, podem encontrar um companheiro melhor ou um psicopata. 

A história se repete num ritual sádico diário. São poucas as variações, mas elas existem porque a trama tem de andar. 

O recado está dado desde o início: o dispositivo é cruel e não se pode esperar piedade, humanismo ou compreensão de quem está a ele submetido. Não há diálogo. Os de cima não respondem. Inútil falar com os de baixo, porque são inferiores, ao menos neste mês. O Poço oferece-se com uma lente ampliada da sociedade contemporânea, na qual a solidariedade e o comportamento de grupo foram abolidos em nome de um individualismo feroz. 

Dura é a maneira como este teorema é demonstrado. A filmagem é, compreensivelmente, claustrofóbica, já que ambientada numa prisão. A repetição dos “banquetes” asquerosos produz repulsa. Cenas explícitas de violência e canibalismo não ajudam no clima. O filme é francamente desagradável. 

Bem, há obras desagradáveis que são importantes. Salò, de Pier Paolo Pasolini, não é nenhum refresco para se ver. Mas foi a maneira encontrada por ele de, ao fazer uma releitura de Sade, sugerir o renascimento do fascismo na Itália do início dos anos 1970. A Comilança (1973), de Marco Ferreri, também não é um piquenique de delicatessen, mas se coloca como crítica feroz à voracidade da sociedade de consumo. 

O Poço parece uma alegoria um tanto ingênua da sociedade de classes do século 21. Tem nos personagens “maus”, como o realista Trimagasi, aquele que fará qualquer coisa para sobreviver. Inclusive devorar um companheiro de cela. Há outras figuras, como a mulher que tenta encontrar sua filha pequena, perdida no labirinto da prisão. Outra, Imoguiri (Antonia San Juan), procura conscientizar a turma do andar de baixo que o alimento será suficiente para todos caso cada um coma apenas o indispensável. E, sim, o protagonista Goreng que, talvez motivado por sua leitura favorita, tentará se rebelar contra os moinhos de vento do “sistema” e fazê-lo implodir. 

Tudo se resume a essa alegoria bastante pesada de um mundo em que “o homem é o lobo do homem”, segundo a frase famosa de Thomas Hobbes em seu clássico Leviatã. Um salve-se quem puder entre os de cima e que os de baixo devorem-se entre eles. Será assim enquanto não se mudar o “sistema”. 

O diretor leva essa fábula ao limite, sem qualquer sutileza, apelando para um horror gore que nada acrescenta à sua intenção de análise. Mais que uma compreensão de estrutura, busca ressonância nos impulsos mais sádicos do público. É pouco para hora e meia de náusea. 

 

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