Crítica: 'O Nó do Diabo' é uma súmula violenta de 200 anos da história do País

'O Nó do Diabo' pode não ser o 'Corra!' brasileiro, mas ambição não falta ao filme que conta sua história através de cinco personagens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 06h00

Houve um momento, no século passado, em que a elite pensante do Brasil criou a utopia de um País sem tensões sociais e no qual casa grande e senzala celebraram com sexo suas núpcias apaziguadoras. Não provoque nenhuma feminista, porque ela vai revidar que o que houve foi uma cultura da prepotência masculina – e do estupro – que persiste até hoje. A novela das 9, Segundo Sol, mostra que essas feridas ainda sangram com o personagem Roberval.

A Vermelho Profundo, empresa produtora nordestina – da Paraíba – garimpou editais públicos que privilegiavam o período da escravidão para fazer o longa em cartaz. OK, O Nó do Diabo pode não ser o Corra! brasileiro, mas ambição não falta ao filme que conta sua história através de cinco personagens.

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São quatro os diretores – Ramon Porto Mota assina o primeiro e o último e os demais são creditados a Ian Abé, Gabriel Martins e Jhésus Tribuzi. A narrativa retrocede, já que se trata de ir às origens da perversa estrutura social brasileira. Começa em 2018 e recua no tempo – 200 anos, até 1818. Dois séculos de opressão e resistência. As histórias intermediárias situam-se em 1987, 1921 e 1871.

A primeira mostra um capataz contratado para impedir a invasão da antiga fazenda dos Vieira. Para expressar a intolerância no Brasil atual, mata negros, gays e mulheres. A segunda mostra casal que busca emprego e é acolhido na casa senhorial. Acolhido não é bem o termo. A brutalidade da classe dominante se manifesta no reuso de instrumentos de tortura.

Na terceira, duas irmãs, uma rebelde, outra mais mansa, são forçadas a servir o senhor e seu visitante na sala e na cama. A história termina num banho de sangue. Na quarta, escravo fugitivo atravessa uma inóspita paisagem de pedra. Busca o quilombo, é perseguido por capitães do mato. Na quinta, a resistência é no próprio quilombo, aonde chegam Zezé Motta e Isabél Zuaa, de As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra. Os orixás são convocados e atendem os mortos-vivos.

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Há algo de Corra!, sim, no desconforto que sentem os personagens do episódio de 1987, o segundo. Não é a urbanidade de As Boas Maneiras. É um mundo mais bárbaro e primitivo. Um horror político e social é coisa rara. Merece (toda) atenção.

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