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Crítica: O homem do martelo e seu irmão que rouba a cena

Herói não é o Homem de Aço, mas vale como gibizão agitado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2013 | 20h08

Nada como o martelo de Thor para devolver o público ao circuito real dos Cinemarks da vida. Passada a Mostra – mas ainda rola a repescagem –, há uma volta à ‘normalidade’ que predomina no circuito comercial – ou seja, às fantasias delirantes que dão o tom dos blockbusters (nem todos). Na entrevista acima, o diretor Alan Taylor, de Game of Thrones, vende seu peixe de que tentou dar um tom mais realista ao herói. Não por acaso, Thor 2 tem um subtítulo, O Mundo Sombrio. Há controvérsia entre a intenção e o resultado, pois o que diverte no novo Thor não é o realismo, mas o aspecto ‘gibizão’.

O filme tem atrativos para todos os públicos – ação, humor, romance, pancadaria, efeitos. E, embora não seja nenhum Homem de Aço – a deslumbrante tragédia familiar de Zach Snyder –, tem até certa densidade na relação dos irmãos, Thor e Loki. São antinômicos e rivais. Como diz Anthony Hopkins numa cena, um filho quer demais o trono (Loki) e o outro prescinde dele (Thor). Há um twist final, mas, por mais que pense, você dificilmente conseguirá entender a reviravolta que põe fim à disputa – e que, na verdade, abre espaço para o 3. O público está amando Loki, tanto quanto o herói.

Thor pertence a uma nova era de super-heróis do cinema. Ele integra o colegiado da Shield, que produziu o megassucesso Os Vingadores. Homem de Ferro e Hulk já haviam ganhado suas aventuras solo, e o próprio Capitão América e Thor precederam de pouco a fantasia de Joss Whedon. O curioso é que o Thor da tela difere do dos gibis, nos quais tem uma identidade secreta. É o dr. Dan Blake, e Jane Foster, aqui promovida a cientista, é apenas sua enfermeira. Recapitulando, você deve se lembrar de que Loki quase destruiu Nova York no desfecho do filme anterior e que Thor e sua amada Jane também foram separados, cada um em seu tempo e espaço. Ela, na Terra, em Nova York; ele, em Asgar.

Surgem agora guerreiros banidos e que ameaçam destruir a galáxia, aproveitando-se das condições criadas por um hipotético alinhamento de planetas (e estrelas). Para enfrentar esses vilões, Thor precisa da ajuda do irmão, que está preso em Asgar. Ele o liberta e, com isso, é acusado de traição pelo próprio pai. Loki é confiável? Essa é a dúvida, e numa cena o próprio meio irmão ironiza. É tanta gente a dizer que o matará, se trair Thor, que ele diz que é melhor tirar a senha e ficar na fila. Loki possui habilidades e é um rei do disfarce. Há uma cena divertida, logo que sai da cadeia e que envolve o Capitão América e coloca na tela o intérprete do papel, Chris Evans, numa participação especial.

No livro com a entrevista que concedeu a François Truffaut, Alfred Hitchcock adverte o discípulo de que, para incrementar o suspense, é bom ter um vilão forte para se opor ao herói. O vilão, propriamente dito, de Thor 2 não fica na lembrança, mas também não é o romance de Chris Hemsworth com Natalie Portman o que mais prende a plateia. O australiano Hemsworth tem o physique du rôle imponente que o papel exige, mas é possível se divertir, e muito, com as maquinações de seu irmão, interpretado por Tom Hiddleston.

O irmão vacilante foi criado pelo ator com base no impacto que teve sobre ele o Coringa de Jack Nicholson no primeiro Batman de Tim Burton. Hiddleston ficou tão fissurado que decidiu ali, depois de ver o filme, o que queria ser - ator. Loki passa por diversas fases e chega, por um breve momento, a se redimir com honra de todos os pecados anteriores. Só que nada é o que é, em definitivo, e ocorre a tal reviravolta. Vale repetir que o filme tem tudo – mas é na pauleira que o diretor excede. Não deixa de ser interessante, porque Game of Thrones está fazendo história pelo que os críticos consideram a sutileza de sua complexidade dramática. Não é bem a praia de Thor, mas quando o loirão brande o martelo pode crer que virá diversão.

 

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