Hilary Bronwyn Gayle/Lionsgate
Hilary Bronwyn Gayle/Lionsgate

Crítica: 'O Escândalo' mostra revolta das mulheres contra a dominação masculina

Charlize, indicada para o Oscar, é extraordinária, mas Margot Robbie, também indicada como melhor coadjuvante, não fica nem um pouco atrás

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2020 | 06h37

Existem dois momentos muito fortes que ajudam na construção da curva dramática da personagem de Charlize Theron em O Escândalo. No original, é Bombshell, e a palavra antecedeu sex symbol, aplicada a mulheres, no jargão masculino, “gostosas”. Na TV de O Escândalo, a notícia tem de ser necessariamente veiculada por mulheres de belas pernas à mostra.

A emissora é real e o executivo, idem. A Fox News virou a porta-voz do pensamento conservador nos EUA e o CEO responsável por aumentar seu faturamento foi Roger Ailes. Na ficção, baseada em fatos, do filme de Jay Roach, Ailes é denunciado por assédio pela personagem de Nicole Kidman, Gretchen Carlson. Charlize faz a estrela da casa, Megyn Kelly. Polemiza com o ainda candidato à indicação pelo Partido Republicano, Donald Trump. Você sabe como termina essa história: Trump foi eleito presidente na onda conservadora que se apossou dos EUA, as denúncias contra Ailes foram aceitas e ele perdeu o cargo, tudo no bojo do movimento #MeToo, que deu voz e força às mulheres dos EUA.

As duas cenas citadas referem-se a discussões de Megyn/Charlize com o marido e a nova apresentadora interpretada por Margot Robbie. Kayla Pospisil vem de uma família religiosa do Meio-Oeste, a maioria silenciosa que colocou Trump no poder. Seu sonho foi sempre chegar a esse lugar, à Fox News. Era a emissora da família. Peru no Natal e a Fox na sua TV. O marido cobra que, num confronto com Trump, que a agrediu e provocou seguidas vezes em seu Twitter, a mulher arregou. Megyn explode e grita que quem paga a hipoteca da casa é ela, com seu alto salário. A cena seguinte é com Kayla, a garota crente traumatizada pela experiência na salinha do chefe, quando ele, como prova de confiança, a leva a mostrar as pernas até a calcinha.

Charlize, indicada para o Oscar - e maquiada para ficar igual a Megyn -, é extraordinária no papel, mas Margot Robbie, também indicada como melhor coadjuvante, não fica nem um pouco atrás. E o filme tem John Lithgow como Roger Ailes. A mulher, a fiel secretária e a advogada são todas solidárias com ele. No mundo controlado pelos homens, as mulheres terminam sendo agentes na manutenção do machismo dominante, a menos que as Megyn da indústria coloquem a boca no mundo, como tantas fizeram para enquadrar o produtor Hervey Weinstein.

Multicolorido e dinâmico, O Escândalo é outro bom trabalho do diretor Roach, de 62 anos, que se iniciou com a infame série Austin Powers, na qual não faltavam piadas sexistas, e aprimorou seu humor com Entrando Numa Fria e Entrando Numa Fria Maior Ainda. A cinebiografia do roteirista Dalton Trumbo, que colocou Bryan Cranston na corrida do Oscar, iniciou a investigação sobre a guinada à direita - e as listas negras - na vida norte-americana. Esse discurso mais político repete-se em O Escândalo, com mais tempero na discussão de gênero (a experiência homossexual de Kayla). Poderia talvez ser ainda mais contundente, não fosse o acordo de confidencialidade que assinala no desfecho. Mas, pegando carona na revolta dos excluídos de Os Miseráveis, outra estreia desta quinta, Roach celebra o que não deixa de ser uma revolta das Barbies.

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