Boris Laewen
Boris Laewen

Crítica: 'O Bar Luva Dourada' traz imagens de um mundo sórdido

Filme narra caso de serial killer em Hamburgo nos anos 1970

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2019 | 03h00

Nos anos 1970, a cidade de Hamburgo foi aterrorizada por um serial killer. O assassino parecia ter predileção por prostitutas idosas e as atraía para sua casa, um muquifo estreito, sujo e soturno. Depois de matá-las, cortava os corpos em pedaços e os escondia em vãos da parede. Sobre o caso, Heinz Strunk escreveu O Bar Luva Dourada, livro transformado em best-seller na Alemanha quando do seu lançamento em 2016. O filme homônimo do diretor alemão de origem turca Fatih Akin é adaptação desse livro. 

O tema é soturno e Akin optou por vertê-lo em linguagem cinematográfica sem qualquer atenuante. Os crimes são expostos em tempo real, com riqueza de detalhes, para incômodo dos espectadores. Mulheres, em particular, sentiram-se muito perturbadas com a obra quando esta foi exibida no Festival de Berlim. Não é para menos. 

Além da violência explícita contra mulheres, o filme abusa do apelo ao sórdido, potencializado pelos espaços fechados. Embora haja raras cenas de rua, quase todo o tempo estamos confinados ao espaço do bar ou ao tétrico apartamento de Fritz Honka (Jonas Dassler, coberto por toneladas de maquiagem). Não há respiro, e a ideia do cineasta parece ser exatamente esta. Adultos devem enfrentar o horror em face, sem pestanejar. Resta saber se é isso que as pessoas procuram quando vão ao cinema. 

Em todo caso, ninguém ousaria dizer que faltam qualidades cinematográficas a O Bar Luva Dourada. Mesmo para inspirar repulsa e asco é necessário saber manejar o instrumento. E Akin é um grande cineasta, vencedor de um Urso de Ouro em Berlim com Contra a Parede, em 2004. Aqui, ele conduz com habilidade o espectador por esse pesadelo sem fim, por esse trem fantasma cinematográfico. Usa uma luz doentia, closes de rostos devastados ou deformados para registrar um mundo sem qualquer piedade, banhado em álcool barato e relações humanas anômalas. 

Através do crime, há essa tentativa de registro das margens da sociedade alemã no período pós-guerra, país reconstruído e afluente, porém cheio de marginais que não se enquadram no novo sistema. Tem seu quê de Rainer Werner Fassbinder e seu formidável Berlim Alexanderplatz. Ou mesmo do clássico M, o Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang. O tipo físico de Honka, curvado, repulsivo, olhos arregalados e nariz deformado, lembra um Nosferatu moderno. Enfim, evocam-se imagens expressionistas que assombraram a cultura cinematográfica alemã na prefiguração do nazismo e, nos anos 1970, ressurgem com a imagem de um lumpemproletariado encharcado de schnaps e ressentimento. O psicótico Honka seria sintoma do algo de podre que existe nos porões da reconstrução do pós-guerra. Como se fosse o retorno do reprimido dos horrores da guerra em tempo de paz. 

Falta, no entanto, senso de nuance para tornar mais humana essa história tétrica. Os personagens (e não apenas Honka) movem-se num mundo no qual qualquer traço de ternura ou empatia parece abolido. Com exceção de um casal jovem, que aparece na história sem aparente função dramática, todos os outros existem num universo de feiura hobbesiana, de guerra (surda) de todos contra todos. Falta dialética a esse retrato chapado demais da miséria, e esse é seu principal ponto de incômodo. 

 

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