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Crítica: Novo Filme de Sokurov desafia fronteiras

'Francofonia' não é ficção ou documentário. É outra coisa.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2016 | 04h00

Francofonia desafia fronteiras. Não é ficção ou documentário. É outra coisa. O novo filme do russo Aleksandr Sokurov usa imagens próprias e de arquivo. Reporta-se a um fato histórico real, a ocupação da França pelos nazistas durante a 2.ª Guerra Mundial.

Em Paris, mostra o relacionamento entre duas figuras públicas da época, o diretor do Museu do Louvre, Jacques Jaujard, e o oficial alemão Franz von Wolff-Metternich. Introduz uma figura histórica de outra época, Napoleão Bonaparte, e um símbolo da Revolução Francesa, Marianne, com seu barrete frígio e o lema revolucionário na boca: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Na parte histórica, Metternich e Jaujard discutem o que deve ser feito para preservar o patrimônio artístico do Louvre. Metternich era encarregado do “Kunstschutz”, a política de preservação das obras de arte do país ocupado. De certa forma, era um olhar para o futuro, para além da guerra. Esta, um dia passaria e o patrimônio deveria ser conservado para as futuras gerações. 

Podemos quase ouvir o coração de Sokurov pulsando com esta demonstração de apreço à cultura em meio à barbárie. Lembremos que ele é o mesmo cineasta de Arca Russa, notável filme sobre o Hermitage feito num único plano sem cortes. Mas, em Francofonia, Sokurov não deixa de lembrar a diferença de tratamento recebida pela França e pelo seu país durante a 2.ª Guerra. Se em Paris, a Cidade Luz, buscava-se preservar a integridade das obras, em Leningrado, hoje São Petersburgo, a história era outra. Cercada pelos alemães durante três anos, a cidade perdeu um milhão de seus habitantes pelo frio e pela fome. 

Sokurov não esquece as tragédias da História nem omite suas referências culturais, como Tolstoi e Chekhov, evocados como figuras tutelares. Na linha fina do filme, trata-se sempre de evocar a cultura, a arte, como possíveis antídotos à desumanização, barragens erguidas pela espécie contra as forças da morte e do obscurantismo. 

Tudo é narrado pela voz de Sokurov, que também dialoga por Skype com o capitão de um navio em mar bravio. Nessa embarcação, há um contêiner com obras de arte, e tanto o cineasta como o capitão se preocupam com seu destino. Este ficará em aberto, como o próprio filme se mantém reticente quanto às suas conclusões. 

Não é difícil imaginar que mares tormentosos se refiram à História humana, que, como sabemos, não conhece repouso. A 2.ª Guerra foi tão terrível, produziu volume de mortandade e destruição tamanhos que despertou em muitos a ilusão de que teria sido a última. O máximo de horror seria como a cura definitiva da vocação bélica da humanidade. Logo em seguida, se viu quanto era ilusória essa esperança. Teve início a Guerra Fria, que se estendeu até a dissolução da União Soviética, em 1991. Nesta ocasião, apareceram outros profetas garantindo que a História se encerrara e dali para frente poderíamos todos viver em paz no remanso do capitalismo e da democracia liberal. Basta uma olhada no mundo para perceber no que deu esta outra profecia benigna.

Uma tempestade marinha pode até ser metáfora amena para o estado do mundo. Sokurov acredita que, em meio a ondas e vento, há uma só certeza, a de que a cultura, sob a forma da arte, deve ser preservada a qualquer custo. No mínimo, porque é tudo que temos. 

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