Lègende Films
Lègende Films

Crítica: Novo filme de Polanski coloca a França à frente do espelho

'O Oficial e o Espião' teve repúdio das apresentadoras do César ao filme, indicado em 12 categorias para o Oscar francês e vencedor de três

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2020 | 06h00

Na semana passada, na França, o noticiário das primeiras páginas dos jornais podia ser o avanço do coronavírus no país, mas, internamente, os articulistas não tinham outro assunto – o repúdio das apresentadoras do César a Roman Polanski, indicado em 12 categorias para o Oscar francês e vencedor de três, incluindo a de melhor diretor, na cerimônia do dia 28 de fevereiro. O que os articulistas discutiam eram duas coisas diferentes – o empoderamento feminino e até que ponto a obra pode ser avaliada pelo comportamento do artista, ou seja, é lícito desautorizar O Oficial e o Espião por causa da acusação de estupro que ainda pesa sobre Polanski?; e a possibilidade de se ver no episódio um recrudescimento do antissemitismo, que está na origem do Caso Dreyfus e também do apoio da França profunda ao nazismo, com o até hoje polêmico governo colaboracionista de Vichy.

Adèle Haenel virou figura emblemática do repúdio ao autor de O Oficial e o Espião. Gay assumida, companheira da diretora Céline Sciamma, de Retrato de Uma Jovem em Chamas – que concorreu ao César com Polanski –, a própria Adèle, ao deixar o recinto, provocou repúdio. Um diretor de elenco a teria ameaçado, seu futuro como atriz estava ameaçado, etc., e isso é absolutamente intolerável, reacendendo velhos preconceitos contra mulheres. O episódio todo repercutiu, e mal. A França no espelho. Bem-vinda à cultura do ódio.

O Caso Dreyfus era o filme que Polanski queria fazer depois de O Escritor Fantasma, em 2010. Não conseguiu e Robert Harris, autor de The Ghost Writer, que seria o roteirista, terminou escrevendo o livro que o cineasta agora adapta. Desde a apresentação do filme em Veneza, no ano passado, O Oficial e o Espião tem provocado discussões acirradas. No Lido, a presidente do júri, Lucrecia Martel, recusou-se a ir ao jantar com os diretores dos filmes concorrentes, porque não se sentaria à mesma mesa de Polanski, mas terminou por premiá-lo com um Leão de Prata (o de Ouro foi para Coringa, de Todd Phillips).

Na estreia, na França, cinemas foram depredados com palavras de ordem antissemitas. O horror, o horror. Dreyfus foi condenado, como espião, num processo fraudado. Louis Garrel é quem faz o papel. Jean Dujardin, como o oficial que ajudou a condená-lo, descobre a fraude e choca-se com a hierarquia do Exército ao tentar reabrir o caso. É o protagonista. Ganha ajuda do escritor Émile Zola. O resto é História. Polanski, até por seus problemas pessoais, talvez quisesse discutir a Justiça. Desde as belíssimas primeiras cenas – a degradação de Dreyfus – fez um grande, imenso filme.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.