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Crítica: nova 'Cinderela' faz releitura antenada e pop do velho clássico

Filme com Camila Cabello no papel principal é versão feminista necessária da história, mas o roteiro é tão focado na mensagem de empoderamento que parece nocautear o telespectador

Jocelyn Noveck, AP

03 de setembro de 2021 | 13h44

Seu amor declarado, seu beijo de conto de fadas realizado, Cinderela tem um pedido urgente para seu Príncipe. Ela consegue uma carona para sua reunião de negócios? E assim, como os príncipes fazem, ele levanta seu novo amor para carregá-la em seu cavalo. Mas, tipo, ela está com pressa. “Não, eu posso andar, é mais rápido”, ela diz animada. “Mas obrigada!”

É um momento descartável, mas talvez um bom exemplo dos trunfos e falhas desta nova Cinderela, decididamente antenada e inspirada pela música pop da era (hashtag) Me Too, escrita e dirigida por Kay Cannon (e coproduzida por James Corden, que também faz o papel de um rato). Uma versão feminista da história familiar é bem-vinda, claro, mas o roteiro é tão focado em sua mensagem de empoderamento feminino que às vezes parece que somos nocauteados por ela. O filme está disponível na Amazon Prime.

 


Felizmente também há momentos, como este, resgatados pela química lúdica entre nossos atraentes protagonistas: a cantora pop e exuberante Camila Cabello como Cinderela, e o estreante Nicholas Galitzine como Príncipe Robert. Os papéis coadjuvantes receberam um tratamento lúdico de profissionais como Pierce Brosnan como o rei - apostando tudo na comédia - e uma tocante mas subutilizada Minnie Driver como sua sufocada rainha.

Também há uma interpretação de encher os olhos de Billy Porter como a fabulosa (“Fab G”) fada madrinha, mas infelizmente, é apenas uma cena com um pouco de narração. Como sempre, Porter sabe como fazer uma entrada, mas para o uso mais efetivo de uma estrela aqui, reparem em Idina Menzel, que traz diversas camadas para a geralmente madrasta “malvada” de apenas uma nota. E, é claro, sua voz de clarim - que realmente podemos dizer que é a melhor da Terra.

O problema mais óbvio em atualizar Cinderela para um público de 2021, é claro, é a premissa de que, para uma mulher, casar bem é o único objetivo: A vida é vivida através de seu homem, seja você Cinderela, a madrasta Vivian (Menzel), as meias-irmãs Malvolia e Narissa (Maddie Baillio e Charlotte Spencer) ou até mesmo a rainha (Driver)

Cannon aborda isso fazendo Cinderella - ela chama a si mesma de Ella aqui, afinal, por que definir uma garota pelas cinzas de seu rosto? - sonhar com o sucesso profissional como uma designer e não com o casamento. Em um dos primeiros números, a criada fica face a face com seu imaginário eu do futuro e ela não é da realeza - é a dona de Dresses by Ella.

Mas este é um sonho distante. Neste reino, as mulheres não dirigem negócios. Todos dizem isso, especialmente Vivian, e ficamos sabendo que ela também sonhou em ser mais que uma esposa. Percebemos cedo que a crueldade de Vivian - menos caricata que em outras versões - deriva de um profundo desapontamento pessoal, e que seu desejo feroz de casar suas filhas nasce de um amargo pragmatismo.

Essa nuance atende bem à mensagem do filme, mas as caracterizações podem ser confusas. É bem chocante ir de um momento em que Vivian parece preocupar-se genuinamente com Ella para outro em que ela violentamente joga tinta no vestido que a mesma passou semanas confeccionando. Também é difícil entender as meias-irmãs - são repugnantes ou não? Em todo caso, só recebem bondade de Ella. Quando uma delas pergunta se está bonita, Ella diz que sim, mas acrescenta: “O que importa é como você se sente ao olhar-se no espelho”.

A trama segue rapidamente, em parte narrada por Town Rapper, que anuncia o baile onde Robert escolherá uma noiva. Um apaixonado Robert já conhecera Ella disfarçada e a convence a ir ao baile para que ela possa encontrar clientes ricos em potencial.

Como já sabemos, a malvada madrasta quase impedirá Cinderela de ir ao baile. E a fada madrinha - desculpe, Fab G - entrará em cena. E o relógio baterá à meia-noite, um sapatinho de cristal será perdido, e o Príncipe começará uma busca.

Não daremos mais detalhes, mas não há nada tão drástico aqui que impeça o final Felizes Para Sempre. No entanto, se há um bordão aqui não é esse: é “Eu me escolho”.

Se ao menos essa admirável mensagem não fosse reforçada tantas vezes, e as conhecidas gracinhas não fossem tão poucas e distantes entre si. Entre essas gracinhas, tem uma boa sobre sapatos, quando Ella reclama com Fab G sobre os desconfortáveis sapatinhos de cristal. São sapatos de mulher, Fab G responde: “A magia tem seus limites”.

Então, infelizmente, é o que faz esta nova “Cinderela”. Mas apesar das comparações com seus antecessores (e inevitáveis futuras iterações), não se pode contestar a lição - para jovens de qualquer sexo - de que seu destino está em suas próprias mãos, não naquelas de alguém que escolhe arrancá-lo magnanimamente de sua própria história e colocá-lo nas dele. / Tradução Lívia Bueloni Gonçalves

 

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