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Crítica: 'Nóis por Nóis' é retrato seco, porém solidário, da periferia curitibana

Filme busca uma visão tão interna quanto possível da vida de jovens moradores de uma comunidade

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

11 de março de 2020 | 06h00

Há muitas maneiras de filmar a periferia. Nóis por Nóis, de Aly Muritiba e Jandir Santin, escolhe sua posição a partir do título. Busca uma visão tão interna quanto possível da vida de jovens moradores de Vila Sabará, comunidade de Curitiba. Tenta captar o acento, a prosódia e a visão de mundo de garotos e garotas que procuram sobreviver e realizar seus sonhos em ambiente pouco propício. 

Para buscar esse ponto de vista “interno” se valem da imersão na vida da comunidade e escalam um elenco em sua maioria composto pelos próprios jovens retratados, como Ma Ry (Mari, aspirante a rapper), Maicon Douglas (Gui), Matheus Correa (Café), Felipe Shat (Shat) e Stephany Fernandes (Jana). Mesclam-se a esse elenco jovem alguns atores profissionais e aí está a receita para um filme que tem como principal trunfo a naturalidade. 

Nóis por Nóis é obra do cotidiano e daí vem sua força. Dele fazem parte elementos como violência policial, tráfico, bailes funk, rivalidades entre grupos, namoros. Um jovem que “filma” a ação policial em seu celular como forma de proteção. Um baile termina com uma briga por causa de ciúmes. Surge uma gravidez indesejada. Há um traficante (Nando, vivido por Luiz Bertazzo), e uma dupla abusiva de policiais, cabo Rocha (Otávio Linhares) e o soldado Santos (Marcos Tonial), estes atores profissionais. 

A filmagem é bastante despojada, como a expressar sem rodeios a situação particular desse estrato da população. O olhar evita o paternalismo, embora seja obviamente solidário com os jovens. Não se limita a apresentar o retrato seco de uma dimensão tão ampla da realidade brasileira, mas sugere como estratégias de sobrevivência podem ser postas em prática. Ainda assim a marca da tragédia parece inevitável num ambiente fruto da obscena desigualdade social do País. 

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