Crítica: No filme 'Los Silencios', os vivos, os mortos e o mundo em processo de transformação

Crítica: No filme 'Los Silencios', os vivos, os mortos e o mundo em processo de transformação

Como em seu filme 'Bollywood Dream', diretora Beatriz Seigner mistura documentário e ficção no novo trabalho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 03h00

Quando foi fazer Bollywood Dream na Índia, Beatriz Seigner não estava só em busca de exotismo. É admiradora do cinema asiático, de autores como Apichatpong Weerasethakul, Tsai Ming-liang e Jia Zhangke. Deixa-se impregnar pela fantasmagoria e pela sensualidade da floresta e das águas que tanto atrai os dois primeiros. Mas Beatriz possui uma pegada muito pessoal, e especial. Como mulher de seu tempo, reflete sobre temas como neocolonialismo e feminismo. Na entrevista acima, conta das mamães no set – ela própria estava amamentando – e dá crédito aos bebês.

Como em Bollywood Dream, ela mistura documentário e ficção. Apenas Marleyda Soto, grande atriz colombiana que faz Amparo, e Enrique Diaz são profissionais. O restante do elenco é quase todo formado por habitantes do lugar fantástico que ela localizou na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru – a Ilha da Fantasia, submersa pelas águas durante parte do ano. Los Silencios tira muito de sua fascínio dessa paisagem, e não apenas. Beatriz tem um profundo respeito pelo outro. A cultura local terminou por se impor em seu filme, essa crença dos habitantes de que seus mortos, como fantasmas, estão entre eles, os vivos.

Na trama de Los Silencios, Amparo vai com o casal de filhos para a casa de uma parente, na Ilha da Fantasia. O marido e a filha morreram e os corpos nunca foram encontrados, mas ela tenta conseguir asilo político no Brasil. O marido, dado como morto, pode estar vivo, e começa a aparecer. Talvez somente espere que a mulher consiga seu visto para acompanhá-la no Brasil. Mas, desde Cannes, no ano passado, quando o filme passou na Quinzena dos Realizadores, muita gente acredita que Los Silencios também é um parente, mesmo que distante, de O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan, sobre aquele menino que se comunicava com os mortos.

Seja como for, poucos filmes, como esse, permitem que os mortos trafeguem entre os vivos como poesia, e não terror. Esse, quando surge, vem da realidade – o relato que os fantasmas fazem de suas vidas pregressas, e um deles narra sua experiência na Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Como ressalta a diretora, é o máximo de documentário e ficção. O fantasma faz um relato acurado – verdadeiro – do que representou/representa a organização paramilitar de inspiração comunista que se tornou parte determinante da equação colombiana.

Amparo e seus filhos, Nuria e Fabio. O marido, Adam. Se as influências de Apichatpong e Tsai ligam-se aos aspectos mais místicos e poéticos de Los Silencios, a referência a Jia ressalta outro aspecto fundamental do filme. Como o autor chinês, que tem sido um cronista das transformações que ocorreram, e continuam ocorrendo, na China capitalista, Beatriz também capta um mundo em convulsão, porque há pressão para que os nativos vendam suas propriedades para um grande empreendimento hoteleiro.

O filme ganha, assim, em complexidade. Possui camadas. Beatriz planeja mostrá-lo para os habitantes da Ilha da Fantasia, em retribuição à sua solidariedade. Eles encamparam a ideia e, quando ela precisou filmar o ritual fúnebre, o local era distante. Foi preciso carregar tudo – barcos, alegorias, equipamento de filmagem – através da selva, até chegar às águas. Os habitantes fizeram força, foram figurantes. Levar até eles o filme, que é deles, é o mínimo que Beatriz sente que pode fazer, como agradecimento.

Veja trailer:

 

Tudo o que sabemos sobre:
Beatriz Seignercinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.