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Cena do filme 'A Odisseia dos Tontos', de Sebastián Borensztein. Filme tem o gigante Ricardo Darín no elenco Warner Bros.

Crítica: Nesta 'Odisseia', os otários somos todos nós, os honestos

'A Odisseia dos Tontos' é divertido - e também crítico - blockbuster argentino com grande atuação de todo o elenco; Ricardo Darín é destaque certo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2019 | 06h00

No começo da história, o protagonista explica o que significa ‘gil’, a gíria argentina traduzida por ‘tonto’ na versão brasileira do filme. ‘Gil’ é quem vive do seu trabalho, paga seus impostos, é correto nas relações pessoais e economiza em vistas de um projeto futuro. Nas sociedades sul-americanas, trata-se de um 'otário'. Como os brasileiros que viram suas poupanças confiscadas pelo governo Collor ou os argentinos que viveram experiência semelhante com o corralito, em 2001. Os hermanos tiveram suas contas bancárias bloqueadas pelo governo da hora, num desses mirabolantes planos de combate à inflação, e ficaram a ver navios. Tal o contexto histórico de A Odisseia dos Tontos, de Sebastián Borensztein, com Ricardo Darín e seu filho, Chino, no elenco. 

Darín é um dos habitantes de uma pequena cidade no interior da Argentina. Pressionados pela crise econômica, vários amigos decidem juntar suas economias (em dólares) e comprar uma propriedade desativada para fundar uma cooperativa. Vários deles entram com seu dinheirinho e Fermín (Ricardo Darín) é incumbido de negociar um empréstimo com o gerente do banco para completar a quantia necessária para a compra. Este o convence a transformar os dólares em pesos para formar saldo médio e viabilizar o empréstimo. E então vem o 'corralito'. 

Enfim, esta é uma história de como os 'otários' são tratados por governos e pessoas inescrupulosas. E também de como esses 'giles' podem reagir, ao invés de apenas ficar em casa e pelos cantos lamentando-se. 

Deve-se dizer que A Odisseia dos Tontos não mantém o tom político que se desenhava de início. Depois de desenvolver sua premissa, veste formato cômico temperado por elementos dramáticos. Inspira-se na velha e boa comédia italiana que, com sabedoria, falava de assuntos sérios sob a capa do cômico. Rindo, faziam pensar, como nos clássicos de Mario Monicelli (A Grande Guerra) ou Dino Risi (Aquele que Sabe Viver). 

De maneira inesperada, ao grupo de amigos se apresenta uma questão: como recuperar o dinheiro furtado? Porque, apesar de todo o aparato jurídico habitual nesses casos, o confisco da poupança é sentido pela população como aquilo que é: um furto. E, para Fermín e seus amigos, apresenta-se a chance única de roubar o ladrão. Sim, porque, como em cidade pequena tudo se sabe, acabam por descobrir, tempos depois, que o tal banqueiro corrupto mandou cavar um buraco em ponto estratégico de sua propriedade rural. E que também encomendou um cofre e um sistema de segurança sofisticado. Não é difícil somar um mais um e deduzir onde se encontra a dinheirama. 

Com essa trama, A Odisseia dos Tontos é um típico filme comercial argentino. Um 'Darín movie', produção puxada pelo mais popular dos atores sul-americanos. Mas é mais do que isso. Solidamente construído a partir de um romance (La Noche de la Usina), de Eduardo Sacheri), conta com aquele elenco de excelentes atores e atrizes do país vizinho. A começar pelo próprio Ricardo Darín e seu filho, Chino, mas também o ótimo Luis Brandoni, a comovente Verónica Llinás, que interpreta Lídia, mulher de Fermín e a disposta Carmen (Rita Cortese). Se abandona sua intenção crítica inicial, o filme mantém-se como ótima diversão. 

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Mexeram com os perdedores errados', diz Ricardo Darín sobre 'A Odisseia dos Tontos'

Em entrevista exclusiva ao 'Estado', maior estrela do cinema argentino falou sobre o novo filme, de política e até mesmo do papa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2019 | 06h00

Foram – ainda estão sendo – 1,8 milhão de ingressos vendidos, e A Odisseia dos Tontos, que estreia nesta quinta, 31, poderia já ter feito 2 milhões, se não fosse um incidente de percurso. O filme estreou em agosto na Argentina, e o agravamento da situação política e econômica – que acabou com a vitória da oposição na eleição de domingo –, levou ao temor de que Maurício Macri impusesse um novo curralito. “As pessoas passaram a contar cada peso para sobreviver e, nesse quadro, ir ao cinema tornou-se supérfluo”, avalia o diretor Sebastián Borensztein, em entrevista ao Estado, na tarde de terça-feira, na Mostra.

Pela manhã, o repórter falara por telefone com Ricardo Darín, e a avaliação foi parecida. “Não creio que o filme, apesar do sucesso, tenha influenciado na eleição. Começamos a trabalhar nesse projeto há três anos. Somente de roteiro, foram dois anos de muito trabalho. Há três anos a situação era outra – na Argentina, no Brasil, no mundo. Estamos assistindo ao agravamento de uma crise planetária. Gente procurando comida no lixo na Argentina, protestando no Chile, na Europa. Torço por (Alberto) Fernández, o presidente eleito, como torci por Macri, independente de filiação partidária. Torço pela Argentina, pelo povo, mas o problema é o sistema, que se baseia na concentração de riqueza e na desigualdade social.”

Para o espectador que vai assistir A Odisseia dos Tontos, o filme talvez bata na tela como um prosseguimento de Relatos Selvagens, de Damián Szifrón, outro megassucesso, maior ainda, argentino. Lá, Darín fazia o engenheiro que explodia, literalmente, o mundo, em protesto contra a burocracia. A Odisseia começa pelo fim, também com uma explosão, e só depois vai se desdobrando o relato. “A ideia da explosão é fundamental, mas creio que há uma diferença muito grande. O engenheiro, especialista em explosivos, age sozinho. A ação na Odisseia é coletiva, o grupo unido, a formação da cooperativa. É a luta dos giles (tontos) contra os hijos de p... (fdp) que nos exploram e enganam.” Como diz a frase no cartaz, após o título – “Mexeram com os perdedores errados.”

Darín conta que o projeto foi concebido na sua produtora e já nasceu coletivo. “Lemos o livro todos ao mesmo tempo. Sebastián, Federico Porternak (o produtor), meu filho, Chino (Darín) e eu. Estamos sempre buscando projetos, discutindo possibilidades. O livro nos deu o que pensar, acendeu uma luz vermelha. O corralito (o congelamento das contas bancárias) em 2001 bateu fundo na consciência do país. A história mostra como a corrupção funciona.” O gerente do banco, mancomunado com o poderoso local, confisca as economias dos integrantes da cooperativa. Como grupo, os perdedores vão se organizar para recuperar seu dinheiro. Mas eles não são especialistas em crimes. Não querem roubar uma fortuna, querem só seu dinheiro de volta. Uma situação que envolve a luta por direitos e decisões éticas. Em inglês, o filme chama-se The Heroic Losers (Os Perdedores Heróicos). 

“Temos, entre os personagens, uma representação da sociedade argentina – o peronista, o anarquista, a empresária cujo negócio vai bem, o mais marca-diabo de todos, que habita nos alagados. E a história também tem esses personagens de pai e filho, que me permitiram contracenar com Chino.” E...? “Mais do que como pai, contracenar com meu filho me deu um prazer enorme, porque eu estava acostumado a ver o resultado dos trabalhos finais dele. Dessa vez, compartilhando o set, pude ver como ele é. Focado, dedicado, solidário. Como a produção era nossa, todos demos o melhor, tentando ajudar-nos a resolver os problemas e interpretando personagens que, no fundo, remetem a uma grande tradição de comédia italiana. Foi um set muito feliz, até por contar uma história de gente que não se abate, que reage. Os problemas voltaram no lançamento, quando fomos atropelados pela realidade, e mesmo assim A Odisseia funcionou, e muito. Ou seja, mesmo sem influenciar na eleição, o filme teve ressonância artística e social.”

Há pelo menos 20 anos os críticos dizem que Darín dá uma cara ao homem e ao cinema argentinos. O que ele pensa disso? “É uma honra, uma inspiração, mas também um desafio. Não escolho personagens como símbolos, nem para forçar uma imagem, mas porque são verdadeiros. Esse homem perdeu tudo – mulher, dinheiro. A vida perdeu sentido para ele, e é o filho que o empurra à ação. É uma situação humana, que posso entender e expressar na tela. O público percebe.” O cinema não é só um trabalho. “Gosto do que faço. Sou amigo de Sebastián (Borensztein), Fizemos Conto Chinês, Kóblic, frequentamos um a casa do outro. Tem uma coisa muito forte aí. Uma coisa de família, uma família de cinema.” Embora internacionalmente conhecido, e um grande nome do cinema de língua espanhola, Darín se recusa a representar em inglês. Por que? “Não é minha língua. Não consigo raciocinar em inglês. E se começo a traduzir mentalmente o que digo a interpretação é afetada. Não sou mais eu. É melhor assim. Já tenho bastante trabalho para tentar abrir mais uma frente em que não me sinta confortável.”

Uma última questão, o Papa Francisco, personagem do grande filme de Fernando Meirelles que encerrou a Mostra: “Não sou religioso e também não vi Dois Papas, mas admiro Fernando (Meirelles). Tínhamos um projeto que não se realizou. Encontrei-o num festival e renovamos o desejo de trabalhar juntos. Quanto a Francisco... Sua autoridade moral transformou-o na grande voz em defesa dos excluídos. Merece todo o meu respeito e admiração.”

Coletivo. 

Cena de ‘A Odisséia dos Tontos’, que entra em cartaz hoje no Brasil

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'Mudança virá com os jovens. Olhem a Greta', diz Sebastián Borensztein ao 'Estado'

Durante entrevista exclusiva, diretor deu alguns detalhes sobre o senso de coletividade presente em seu novo filme, 'A Odisseia dos Tontos'

Entrevista com

Sebastián Borensztein

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2019 | 06h00

Um filme feito em grupo. Esta é a melhor forma de definir o novo trabalho do diretor argentino Sebastián Borensztein, que veio ao Brasil para divulgar A Odisseia dos Tontos, filme que conta com a presença de Ricardo Darín, um dos - se não o maior - ator da Argentina de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Estado, Borensztein falou sobre o projeto, de como era trabalhar com o próprio pai e fez uma análise positiva do futuro.

 

Luiz Carlos Merten - Ricardo (Darín) destaca a importância, neste momento, de um filme baseado no coletivo...

Sebastián Borensztein - A Odisseia já nasceu assim. Lemos todos o livro, Ricardo, Chino, Federico (Porternak, o produtor) e eu ao mesmo tempo e começamos a trabalhar. Escrevi o roteiro com Eduardo Sacheri (o autor), mas todo mundo opinava. Mudamos muita coisa, o ponto de vista, o desfecho. Mas sempre com essa ideia de grupo e de uma dos tontos contra os fdp.

 

É seu melhor filme, concorda?

Claro que não, será o próximo, que nem sei qual será. 

 

Ricardo falou do prazer que foi trabalhar com Chino Darín...

...E eu compreendo. Durante anos trabalhei com meu pai, que foi um grande nome da TV, e meu medo era destruir a carreira dele.

 

A Argentina tem futuro com Fernández?

Tem de ter. Tenho uma filha e lhe digo: Os jovens vão mudar o mundo. Olhe o exemplo de Greta Thuberg.

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