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Crítica: Mais do que precisão biográfica, falta a intensidade de Elis

Filme sobre Elis Regina, que teve estreia em Gramado, evita as extremidades de uma cantora que não operava na suavidade

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2016 | 04h00

Elis Regina é uma das personagens mais intensas na história da música brasileira. Intensa e transparente em quedas e vitórias, o que a diferencia de todos os outros. Sua vida corria a uma velocidade de três dias a cada sequência de 24 horas, com episódios que iam do mais profundo amor ao pior dos sentimentos. Ao seu redor havia veneração de verdade, que a colocava no palco como a melhor do País, mas também inveja, ganância e hipocrisia, que temperavam sofrimentos quase insuportáveis. Ao final da vida, a cocaína surgiu ardilosa, sedutora e mortal. 

Um fato é que não existia espaços para a linearidade dos mortais na vida de Elis. Ela estava sempre no céu ou no inferno, e levava os dois para o palco. Sentia urgência de vida como mãe, mulher e cantora de tal forma que agia como se soubesse que aquele espetáculo não duraria por muito tempo.

O filme de Hugo Prata, aplaudido em Gramado, não tinha a obrigação de perseguir a história em seus detalhes precisos. Nenhuma cinebiografia deveria ser cobrada por não fazê-lo. As duas horas de duração de um longa são cruéis e impiedosas. Muitas verdades e muitas pessoas ficarão inevitavelmente de fora durante o processo industrial que faz uma história real virar entretenimento. Paciência. Que os biógrafos cumpram a função de contar a verdade.

O que não deveria ficar de fora, no entanto, é o espírito de Elis, o que nem sempre se faz presente ou é sustentado pela caracterização e entrega de Andréia Horta. A questão é outra. Hugo Prata preferiu caminhar nas entrelinhas, agir nas sutilezas. Assim, ganhou em classe mas perdeu nas extremidades de uma mulher que não operava na suavidade. Sua Elis é menos feroz, menos apaixonada, mais previsível, perdendo pontos onde jamais deveria perder: intensidade.

Falta o momento de uma grande interpretação musical, o instante tão cinematográfico em que todos os pecados de Elis eram perdoados e que esperou décadas para virar filme. Falta a Elis insegura e competitiva, a Elis fiel aos filhos e infiel aos maridos. Falta entender o que levou aquela mulher aparentemente tão realizada a sucumbir à cocaína. E falta um final.

O episódio das drogas também chega protegido demais. Se não era o caso de escancarar cenas de consumo de pó, era sim o momento de dar vida às entrelinhas, de concretizar as sugestões. Elis se foi precocemente não por um mero acaso. Sua destruição começa com a separação, também não por acaso, do marido pianista e diretor musical Cesar Camargo Mariano. Cesar e Elis se feriram mutuamente o bastante para que ela tomasse essa decisão. O que incomoda no filme 'Elis' não é a falta de precisão biográfica, como a supressão da mãe e a criação de um pai longe da realidade. Quem faz falta mesmo, com todos os louros garantidos à Andréia Horta, é um pouco mais de Elis Regina.

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