Instituto Lumière
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Crítica: 'Lumière! A Aventura Começa!' surgiu com o povo na saída da fábrica

A ideia é resgatar a produção dos Lumières mostrando que ela é um testemunho vivo de uma época

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 06h00

Como delegado-geral do Festival de Cannes, Tierry Frémaux está acostumado a receber os maiores nomes do cinema – e a ser adulado por eles – no alto da escadaria de Cannes. E volta e meia ele homenageia autores que venera colocando como trilha, para eles, seu cantor e compositor ‘du coeur’ – Bruce Springsteen. Born to Run. Mas Frémaux não hesita quando se pergunta sobre sua emoção inesquecível. Ele recebeu Michael Jackson no Instituto Lumière, em Lyon. Mostrou-lhe os curtas dos irmãos. “Michael tirou os óculos escuros e havia emoção no olhar dele.”

Como se fosse o catecismo do cinéfilo, todo amante do cinema sabe que a primeira sessão pública, com ingressos pagos, ocorreu em Paris, em 28 de dezembro de 1895. O filme – A Chegada do Trem à Estação. Não foi o primeiro filme dos Lumières – a honra cabe a La Sortie des Usines, a Saída da Fábrica. Como diretor do Instituto Lumière, em Lyon, Frémaux conhece o catálogo com os mais de mil filmes realizados pelos irmãos. Em seu documentário que estreia nesta quinta, ele selecionou 108. Por meio deles, divididos em capítulos, conta uma história dos irmãos, e da França. Revisita o mundo que viu o cinematógrafo nascer.

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Por que um filme sobre os irmãos Lumière? Como responsável pela seleção de Cannes, Frémaux está ancorado na contemporaneidade. Como diretor-geral do Instituto Lumière, trabalha com o passado, as origens. Mas, como ele diz, não se trata de uma arqueologia do cinema. A ideia é justamente resgatar a produção dos Lumières mostrando que ela é um testemunho vivo de uma época e que as imagens, recuperadas em 4 K, são belas como se tivessem sido produzidas agora. Frémaux sabe que há um preconceito com filmes antigos. Provoca – “Shakespeare é mais velho que o cinema, mas ninguém diz que vai ver um ‘velho Shakespeare’. É preciso libertar os Lumières do preconceito.”

O filme mapeia as origens do cinema – a fotografia animada. O primeiro filme, os seguintes, as suas muitas variações, porque os Lumières inventaram também o remake. Revelaram sua cidade, que também é a de Frémaux – e ele é tão ‘lyonnais’ que, em Paris, habita na Rue Lyon. A França que trabalha, a França que se diverte, o mundo, tudo aparece. Nos primórdios do cinema, os Lumières enviavam ao mundo todo seus cinegrafistas, em busca de imagens. Eles ousavam. Assim nasceram o travelling, a panorâmica, a grua. E quando Frémaux cita, a propósito de tal imagem, Raoul Walsh, Richard Fleischer, John Ford, Akira Kurosawa, Sergei Eisenstein ou James Cameron, é para mostrar que os Lumières, e Louis, o verdadeiro diretor – é a grande tese do filme –, foram pioneiros em questionamentos que atravessam toda a história do cinema. O mais importante – o cinema nasceu na saída da usina. Com o povo. Trabalhadores. “C’est beaux, ça.” É lindo, reflete Frémaux.

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