TSG Entertainment
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Crítica: 'Jojo Rabbit' e a arte de satirizar na tradição de Chaplin e Benigni

Roman Griffin Davis, o Jojo, é um encanto no seu processo de tomar consciência e virar adulto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 de janeiro de 2020 | 06h00

Ator, diretor, escritor, pintor. Taika Waititi tem exercido todas essas atividades, mas na Nova Zelândia, onde nasceu, é conhecido principalmente como comediante. Ele concorreu ao Oscar de curta, em 2004, com Two Cars, One Night. Dirigiu Thor: Ragnarok em 2017 e agora está de novo indicado para o Oscar (de longa) por Jojo Rabbit. É o único dos nove indicados para melhor filme que ainda falta estrear nos cinemas brasileiros, mas, neste final se semana, salas selecionadas já estarão mostrando Jojo Rabbit em pré-estreia. Talvez seja exagero, mas a imprensa especializada dos EUA colou uma etiqueta em Waititi – visionário.

Ele não é o primeiro e certamente não será o último a fazer sátira do nazismo, e de Adolf Hitler. Em 1940, em plena 2.ª Guerra, Charles Chaplin realizou O Grande Ditador, colocando-se na dupla pele de um barbeiro judeu e do ‘führer’, a quem ele substitui, dada a semelhança dos dois. Tornaram-se antológicas as cenas em que o ditador, Hynkel, brinca com o globo terrestre, como se fosse uma bola – conta a lenda que o próprio Hitler fazia projetar o filme, para rir de si mesmo. Quase 60 anos depois, em 1998, o italiano Roberto Benigni fez A Vida É Bela, sobre um pai judeu que mente para o filho pequeno sobre o Holocausto e transforma o horror do nazismo em outra coisa, mais palatável, até divertida. Com A Vida É Bela, Benigni venceu os Oscars de melhor ator e melhor filme estrangeiro, derrotando Central do Brasil, de Walter Salles.

Jojo Rabbit não é sobre o Holocausto. É sobre um adorável – e um tanto desastrado – garoto alemão de 10 anos que tenta se adaptar ao mundo que o cerca. Jojo elege como amigo secreto ninguém menos que Hitler. Lamenta-se que ninguém gosta dele. E Adolf, para encorajá-lo – “Sempre fui menosprezado.” Mamãe/Scarlett Johansson é da Resistência e Jojo descobre que ela esconde na parede falsa da casa uma garota judia, Elsa. Delata, ou não? Jojo vive o dilema num mundo que desmorona. As paradas nazistas, que começam ao som dos Beatles (I Wanna Hold Your Hand), vão mudando ao longo do filme. Sam Rockwell faz um nazista que, no limite, salva o garoto e Elsa está ali para dar lições de humanidade, lembrando que Jojo não é nazista, apenas um garoto que adora uniforme e quer se enturmar. Há o risco de que outros garotos, no mundo real, que vira à direita, se tornem nazistas. Na fantasia, Roman Griffin Davis, o Jojo, é um encanto no seu processo de tomar consciência e virar adulto. O próprio diretor faz Hitler. É hilário.

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