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Crítica internacional elogia 'Educação Sentimental', de Bressane

Imprensa elegeu o filme do diretor prasileiro a 'joia' do Festival de Locarno

Rui Martins - Especial para o Estado - Locarno , O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2013 | 19h30

Os filmes são feitos para que sejam interpretados, diz Júlio Bressane logo depois da estreia de seu último filme, Educação Sentimental, na competição internacional do Festival de Locarno, na Suíça, encerrado na semana passada.

Nada a ver com A Educação Sentimental de Gustave Flaubert, publicada em 1869. Trata-se, na verdade, de uma história inspirada na mitologia grega em que a Lua se apaixona pelo corpo nu de um jovem em pleno sono e o acaricia com sua luz. Esse contato amoroso é o suficiente para uma punição – Endimião não irá mais acordar do seu sono, pois aos mortais se proibia qualquer contato com os deuses.

Com essa chave, poderá o espectador melhor interpretar o novo filme de Bressane? Ficará, sem dúvida, mais fácil. Isso, contudo, não preocupa o cineasta, pois, embora seja pouco compreendido no Brasil, pôde constatar entusiasmo e admiração entre os críticos presentes no seu contato com a imprensa internacional especializada – alguns elegeram seu filme a “joia” do festival.

Também não preocupa o cineasta a reação da crítica brasileira, pois sabe ter certa dificuldade com os críticos, mesmo porque é “um tanto autista”, como confessa Bressane.

Porém, quem gosta de interpretar o cinema encontrará muitos enigmas pela frente, mesmo tendo sido oferecida a chave do amor da Lua por Endimião. Ele é vivido por um rapaz de nome Áureo, que pouco fala e muito ouve, dando a impressão de aprender certas preciosidades da cultura que lhe são amorosamente transmitidas pela professora Áurea, de dicção impecável.

Inculto, Áureo só conhece o desejo físico, no qual foi formado e no qual é mais experiente. Pouco a pouco, parece assimilar as lições que lhe são ditadas pela apaixonada Áurea. Como a de que os animais têm sua linguagem, talvez mais fácil de interpretar que a de certas imagens que se projetam na tela dos cinema depois de transpassar o celuloide.

A frustrada Educação Sentimental de Áureo faz-se numa atmosfera brasileira de sons de bicos de tucanos, cantos de pássaros e vegetação nativa, propícias ao aprendizado sofisticado das cinco vogais, bem sonorizadas pela boca de Áurea, e ao som de uma composição de Vassourinha. Como o amor da Lua por Endimião, nada se consuma entre Áurea e Áureo, mesmo que ela se contorça de desejo numa dança oriental.

Quando esteve pela última vez no Festival de Locarno?

Há 46 anos, quando trouxe meu primeiro filme como diretor, Cara a Cara. Não me lembro de nada. Só de que meu filme foi muito mal recebido.

Por que faz cinema?

O cinema é uma questão de sobrevivência. É fazendo filmes que conheço a mim mesmo.

Em que clima existe seu filme?

Vivemos a época da tirania bancária que nos dá a sensação do desespero na paz. Ao mesmo tempo, ele é uma maneira de tratar sua própria patologia, pois esta é de um tipo que engendra esse filme. É preciso trabalhar em cima desses distúrbios, pois as imagens vão de imagens fantasmas a imagens sintomas. Porque o cinema perdeu sua força, limitado que está pela cultura, e é muito difícil julgar as coisas de nossa época, mesmo as que detestemos. Pode-se falar que o cinema desapareceu porque perdeu sua transparência e passou para a opacidade, essa transição do celuloide transpassado pela luz para o digital, que é um processo importante, mas que não consiste mais na projeção e na transparência.

Em que sentido pode ser entender esse desaparecimento do cinema?

Sabemos que um certo tipo de cinema desapareceu, mas não morreu. Essa é a dialética da sobrevivência, o cinema está talvez num intervalo, estruturando sua sobrevivência. Não se deve confundi-la, porém, com salvação, porque não há nada a salvar. As próprias imagens de meu filme são de sobrevivência e, ao mesmo tempo, imagens autônomas.

Como se pode entender a personagem do rapaz calado e ouvindo a maior parte do tempo em Educação Sentimental?

É uma espécie de educação sentimental. A mulher cultiva a leitura, filha de pais intelectuais que liam, coisa que já não é tão comum. E ela vê um rapaz, desprovido de tudo, mas que tem um dom, o da escuta, mesmo se não compreende nada. Se sabe ouvir, é o começo da história. Mas, ao mesmo tempo, é uma provocação, porque ela fala de coisas que sabe serem desconhecidas pelo rapaz.

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