Crítica: 'Gemma Bovery' é bom, mas a atriz é um espanto

Crítica: 'Gemma Bovery' é bom, mas a atriz é um espanto

Longa que dialoga com a literatura, mas procura não se curvar a ela, traz a sedutora Gemma Arterton como Emma Bovary

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 05h00

Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte, de Anne Fontaine, é exemplo da fascinação do cinema francês pela literatura. Sedução que, vale lembrar, gerou críticas impiedosas na época da nouvelle vague por parte da revista Cahiers du Cinéma. Mas, a verdade é que Gemma Bovery está longe do “cinéma de qualité” detonado pelos críticos dos Cahiers (François Truffaut à frente) nos anos 1950. Melhor dizer que Fontaine, no caso, dialoga com a literatura, mas procura não se curvar a ela.

Dialoga, a começar pela semelhança do nome da protagonista com o da personagem. Gemma Bovery (Gemma Arterton), de fato lembra Emma Bovary, heroína triste da obra-prima de Flaubert. Este livro fundamental da história literária francesa e da cultura mundial, conta a história da mulher insatisfeita com a vida na província e que passa a trair o marido, o bondoso médico Charles. Afunda-se em dívidas e amantes e termina mal. Com o escândalo da obra, Flaubert foi levado às barras do tribunal e, quando um juiz lhe pergunta em quem teria se inspirado para criar a problemática dama, teria respondido: “Madame Bovary c’est moi (Madame Bovary sou eu)”. Em outras palavras, somos todos nós, já que o personagem é universal.

Claro que os padrões morais mudaram e não seria possível escrever uma história como esta hoje em dia. Bovery guarda, no entanto, algum tipo de semelhança essencial com sua antepassada. Ela chega com o marido Charlie à Normandia (são ingleses) para viverem mais próximos à natureza. Logo Gemma conhece o vizinho, um padeiro sofisticado, Martin (Fabrice Lucchini). Ora, Martin maneja tanto pães quanto letras e é fanático por Flaubert. Logo descobre paralelismo entre a sedutora recém-chegada e a triste Emma Bovary do romance de Flaubert. Na realidade, Martin, já na idade madura, cozinha uma paixonite platônica pela jovem Gemma, um mulherão de fato, desenvolta, dada a atitudes sedutoras e dona do leve sotaque que a torna definitivamente irresistível. Trata-se, digamos, de “amor” à primeira vista. Quando vê Gemma pela primeira vez, Martin, que é casado e pai de família, murmura: “Dez anos de tranquilidade sexual que se vão...”.

A observação um tanto machista dá ideia do tom imposto ao filme pelo narrador Martin. Algo de sensualidade não resolvida, um humor cálido, referências inteligentes e não raro cultas. Num estilo de filmagem de muito frescor, destacam-se os personagens contra a paisagem campestre da Normandia, em todo contrária ao ambiente urbano comum nos filmes franceses. Aqui não existe a agitação febril da cidade e dos personagens. O ritmo é menor e mais pausado, mesmo na fala dos atores. Anne Fontaine imprime ao filme esse andamento mais reflexivo. Não abdica, porém, do tônus sexual que vem, todo, da presença física de Gemma.

A versão brasileira vende-se com um subtítulo – A Vida Imita a Arte. Tentativa didática de explicitar ao distinto público que Anne Fontaine trabalha com o paralelismo entre o texto literário e a “vida real” da inglesa que vem morar na Normandia. Assim, podemos esperar dela uma trajetória semelhante à da personagem de Flaubert, com tudo o que esta comporta em sua psicologia – uma insatisfação de fundo, que a faz buscar em outras experiências aquilo que não encontra com o marido.

Há, nessa relação, algo de artificial que, de certa forma, atravanca um pouco o fluxo da história. Tenta-se antecipar, pelo conhecimento literário do destino de Emma o que poderá acontecer com Gemma. Nem sempre funciona bem, mas o filme é acima da média e Gemma, bem, é um verdadeiro espanto. 

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