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Crítica: 'Esperando Acordada' é um filme feito para você se sentir melhor

Longa pode ser considerado uma espécie de comédia romântica pouco usual

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2016 | 05h00

Perrine (Isabelle Carré) ganha a vida animando festas de crianças ou tocando (mal) seu violino em asilos de idosos. Um dia, perdida na estrada, pede informação a um homem e provoca sem querer um acidente. Ela foge, mas no dia seguinte descobre que o homem fora internado e estava em coma, na UTI. Decide visitá-lo. 

Esse é ponto de partida de Esperando Acordada, da diretora Marie Belhomme. Um filme simpático, sem dúvida, que tira partido do estilo “gauche” encantador de Isabelle Carré. De fato, a atriz é meio irresistível no papel de mulher um tanto desajeitada, pouco hábil em sua profissão, mas que a tudo compensa pelo bom coração. Ela é tímida, aproxima-se dos 40 anos de idade e vive só. Não é especialmente bonita, não tem dinheiro, é fraca na profissão. Mas como resistir a ela? 

De outra forma, Esperando Acordada pode ser considerado uma espécie de comédia romântica pouco usual. Movida pela culpa, ou sei lá porque tipo de sentimento, Perrine assume a tarefa de falar com o não tão belo assim adormecido, para ver se ele desperta. Lembra, nesse sentido, o infinitamente melhor Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar. Mas apenas nesse ponto. 

Esperando Acordada corre em outra raia. Parece que a pretensão de Marie Belhomme é filmar uma despretensiosa fábula de amor. A história em si, o estilo de filmagem, e mesmo a bucólica paisagem do campo da Bretanha dão a impressão de algo um tanto retrô. O que não chega a ser problema. A história é fora do tempo atual, os personagens idem, há uma certa graça na trama, mas nada exagerado, nada fora do tom, nada que implique alguma maldade. Nem mesmo o fato de Perrine “invadir” a vida de Fabrice (Philippe Rebbot) enquanto ele dorme implica má intenção. Pelo contrário. Se existe alguma característica nítida neste Esperando Acordada é sua submissão às boas intenções. 

Esse é um ponto. Como já disse em alguma ocasião um dos nossos maiores críticos, Jean-Claude Bernardet, o excesso de boas intenções não dá bons filmes. Isso é um fato estético a meu ver indiscutível. Quanto se opta por uma das vertentes da experiência humana, ignorando-se todas as demais, se produz algo apenas parcial. E, portanto, menor? Talvez sim, talvez não. Grandes artistas aspiram a obras muito amplas, que refletem e discutem a complexidade da experiência no mundo. Além disso, o fazem buscando uma linguagem original, que imprima sua marca autoral. Grandes pretensões levam a grandes obras. Ou a grandes tombos. 

Não é, nem de longe, a expectativa que se pode deduzir de Marie Belhomme. É seu primeiro longa, no qual busca a total simplicidade quando não o simplismo. Em suma, é um “feel good movie”, aquele tipo de filme feito para o espectador se sentir melhor à saída do cinema do que quando entrou. Nesse sentido, convém dizer, funciona direitinho. 

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