Gullane Filmes
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Crítica: Em 'O Olho e a Faca', terra firme oscila mais que o mar

Filme com Rodrigo Lombardi é um exemplar raro na tradição cinematográfica brasileira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 03h00

Existem poucos filmes como o de Paulo Sacramento na tradição cinematográfica brasileira. Vale lembrar uma obra-prima um tanto esquecida, daqueles filmes que os críticos se obstinam em esquecer. Todo mundo gosta de citar O Desafio, de Paulo César Saraceni, como ‘o’ clássico sobre a crise da esquerda, após o golpe militar, nos anos 1960. Mas e O Bravo Guerreiro? A imagem que ainda assombra – Paulo César Pereio com aquele revólver na boca, prestes, ou pronto, a disparar? O político colocado à prova – por seus pares, pelo sindicato. A radicalização da ética no País, em que ela foi sempre relativa, atendendo a exigências circunstanciais.

O Bravo Guerreiro é sobre um mundo, uma vida que se desestabiliza e implode, mas filmado com absoluto rigor. O personagem pode estar perdendo pé de tudo, mas a imagem não treme, a montagem é precisa. O Bravo Guerreiro é de 1969. Meio século depois, outro filme de montador. Preciso, perfeito, cirúrgico. Estamos tão acostumados a ver filmes em que o jeitinho brasileiro se manifesta pelo achincalhe, pela avacalhação – e podem ser grandes filmes –, que desconcerta quando um autor exibe essa limpidez do olhar. A faca que corta o olho, Luis Buñuel. Ver aquilo que o olho não consegue enxergar.

A vida na estação petrolífera. Petrobrás, pré-sal, jogos de poder, meritocracia. Tudo isso, o Brasil, de alguma forma está em O Olho e a Faca. O filme começa como um documentário sobre a estação. Um acidente desestabiliza tudo – a vida de Roberto/Rodrigo Lombardi. Em terra firme, onde a vida dele talvez oscile mais que no mar, o tom não é menos documentário. E a subversão dessa aparente ordem que é a desordem da vida de Roberto – o sexo, o corvo. O sexo é vida. O corvo é morte? Lombardi é excepcional, como o filme, que a crítica parece não querer ver. Ou saber ver. Obra-prima?

 

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