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Crítica: Em 'Mulher-Maravilha 1984', o sonho está ligado ao desejo

Na ficção de Mulher-Maravilha 1984, a era do poder do homem terminou

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2020 | 19h17

Qualquer espectador vai concordar – não é fácil dar sequência a um grande sucesso, mais ainda a um filme fenômeno como foi Mulher-Maravilha. Mas vale prestar atenção em duas observações que a diretora Patty Jenkins faz na entrevista – ela diz que seria interessante transformar Diana/Wonder Woman na James Bond dos filmes de super-heróis. E acrescenta que situar a história nos anos 1980 lhe permitiria recriar uma década que foi de excessos, e não apenas nos filmes.

O cinema nasceu contemporâneo da interpretação dos sonhos, por Sigmund Freud. Já houve gente que definiu ver um filme como sonhar acordado. O sonho está muito ligado ao desejo, e ele está no centro do novo filme. Existe essa pedra que realiza os desejos das pessoas. A dra. Barbara Minerva quer ser como Diana. Quer caminhar por si mesma sobre seus saltos altos. Só que a Mulher-Maravilha em que ela se transforma – Cheetah – perde a humanidade. Vira uma aberração.

Atenção – o texto tem spoiler. Todo mundo tem desejos. O de Diana é ter de volta Steve. O de Maxwell Lord é ser um herói aos olhos do filho, mas a obsessão pelo poder arruína tudo. 

O fato de o filme situar-se em 1984 está longe de ser mera coincidência. George Orwell, o mundo ditatorial, a supressão da individualidade. O mundo vira um caos, maior do que já é. Todo mundo tem de abrir mão de seu desejo individual para que o coletivo possa funcionar. Barbara tem de desistir de Cheetah, Diana, de Steve.

Nesse mundo de mulheres poderosas, qual é o papel do homem? Steve é o verdadeiro herói, porque ele sabe o que é melhor para o mundo, e para Diana. Diz a frase mais simples e bela – “Eu vivi uma boa vida”. Sacrifica-se pelo coletivo. O que é o tal empoderamento feminino? Diana tem de se fragilizar para se empoderar de novo com a nova armadura dourada que a torna invencível. E Lord tem de abrir mão de ser o inconsciente coletivo sonhado por todos para ser... pai. É só quando se perde tudo, abandona tudo, que se pode recomeçar. Diana está, de novo, pronta, no desfecho. Pronta para o quê? Amar?

O filme é excessivo, mas bom. Toda a construção simbólica tem a ver com o que diz Steve ao pilotar o avião. Dominar o vento, o ar. Saber quando elevar-se. O avião fica invisível, oculta-se. O salto alto faz o movimento contrário – revela. Na ficção de Mulher-Maravilha 1984, a era do poder do homem terminou. Todo poder às mulheres. Amor e verdade movem Diana. Permitem-lhe acionar o laço e cavalgar raios. O verdadeiro nome dessa mulher, o seu diferencial, é compaixão. 

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