Universal Pictures
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Crítica: 'Duas Rainhas' é sério, mas nem tanto, bem-feito, mas não muito

É um novelão, mas muito bem interpretado pelas protagonistas Margot Robbie e Saoirse Ronan, que vivem Elizabeth I e Mary Stuart; veja trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de abril de 2019 | 03h00

Mary Stuart tem estado no inconsciente coletivo por quase 500 anos. No cinema, inspirou um clássico de John FordMary of Scotland, de 1936 –, do qual Orson Welles retirou ideias sobre a construção do cenário para o seu Cidadão Kane. Inspirou também um novelão de Charles Jarrott – Mary Stuart, Rainha da Escócia, de 1972 –, cujo interesse estava todo no embate entre duas grandes atrizes, Vanessa Redgrave, no papel-título, e Glenda Jackson como sua oponente, Elizabeth I.

Também inspirou peças – de Schiller, filmada por Ford – e incontáveis livros, incluindo o de Stefan Zweig, que acaba de ser reeditado no Brasil pela José Olympio. Zweig fez um estudo fascinante sobre Mary e seu tempo. Encarnação do absolutismo real, ela nunca duvidou da legitimidade de suas ambições. Considerava-se rainha da Escócia e da Inglaterra, sendo a bastarda Elizabeth uma usurpadora do seu trono.

O conflito entre as duas foi alimentado pela disputa religiosa. Mary, católica, Elizabeth, protestante anglicana. No limite, Elizabeth mandou executar a rival, mas, por ter morrido sem descendência, foi sucedida por Jaime I, o filho de Mary e hoje as duas repousam lado a lado como rainhas na abadia de Westminster. 

Ao mandar matar a rival, Elizabeth abriu um precedente. Reis eram vitalícios e gozavam do direito divino de não prestar contas de seus atos. Ao matar a rainha, sua igual – Mary considerava-se superior –, ela permitiu que dois séculos depois a Revolução Francesa promovesse aquele banho de sangue. Tudo isso é história, com maiúscula, que Zweig analisa com propriedade e estilo. Às vezes a gente até esquece quão grande escritor ele foi. O problema talvez seja um certo machismo no olhar do autor. Já o filme está mais para o novelão de Jarrott do que para a ousadia de Ford, que centra seu relato no julgamento viciado de Mary. Josie Rourke é a diretora.

De cara, Mary, interpretada por Saoirse Ronan, é retirada de sua cela e levada para o cadafalso. As aias arrancam seu vestido e por baixo ela usa um camisolão vermelho-sangue. Foi assim na realidade. A cor realça a dramaticidade, e mais – o martírio que Mary sofreu por ser cristã.

Josie Rourke é uma prestigiada diretora inglesa de teatro. Tem flertado com o cinema. Suas encenações foram filmadas e apresentadas como telefilmes na TV da Inglaterra – Coriolano, com Tom Hiddleston; Ligações Perigosas, com Janet McTeer e Dominic West. Duas Rainhas é sua primeira direção para cinema. O filme beneficia-se enormemente de seu elenco – de suas atrizes.

No Oscar do ano passado, Saoirse e Margot Robbie, que faz Elizabeth (com um nariz falso) concorreram a melhor atriz por dois dramas de ambientação contemporânea, Lady Bird – A Hora de Voar e Eu, Tonya. Ambas estão muito bem no drama histórico que Josie adaptou do livro de Beau Willimon.

Mary, que foi rainha consorte da França, desembarca na Escócia e se coloca sob a proteção do meio-irmão, que terá sempre uma atitude ambivalente com ela. Alia-se a Elizabeth, quer o lugar dela. O filme mostra o jogo de poder entre as rainhas – Elizabeth impõe seu amante a Mary, desiste, força-a a se casar com Henry Darnley, que é bissexual e vai para a cama com o artista protegido da rainha da Escócia. O filme tem sexo, romance, traição, todo tipo de intriga palaciana. É um novelão. Sério, mas nem tanto. Bem-feito, mas não muito. Bem interpretado – isso sim.

 

 

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