Festa do Cinema Italiano
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Crítica: 'Dogman', a brutalidade que surge da ausência da mediação política

A Itália do filme de Matteo Garone nada tem de bela e mostra gente tentando a sobrevivência do dia a dia, explorada pelos mais fortes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 09h00

Dogman, de Matteo Garrone, deu a Palma de Ouro de ator a Marcello Fonte, seu protagonista. É um caso curioso, pois de antiglamour. Marcello, personagem com o mesmo prenome do ator, é o dono de um pet shop na periferia de Castel Volturno, soturna cidade da Campânia, ao Sul do país. É um local semidesértico, com prédios abandonados e onde grassa a violência. 

A história, baseada em fatos reais, se concentra na relação entre o frágil Marcello e o brutamontes Simoncino (Edoardo Pesce), um encrenqueiro que atormenta os outros moradores com seus crimes e ações violentas. 

A relação entre Marcello e Simoncino, ambivalente, misto de amizade, cumplicidade e abuso, encaminha-se para um desfecho trágico, de um brutalismo seco. Filme muito forte.

Deve ser dito que, em determinados filmes, Garrone exerce uma espécie de realismo bruto. Mais que nada esconder, parece se empenhar em expor o desagradável e buscar o limite de tolerância estética do espectador.

Era já assim em seu filme mais famoso, Gomorra (da obra de Roberto Saviano) sobre a “máfia” napolitana, a Camorra. A Itália que mostra é o avesso do cartão-postal de um dos países mais belos do mundo, dono de boa parte do patrimônio artístico da humanidade e de uma gastronomia de invejar. 

Pois bem, essa Itália nada tem de bela, nem de romântica, pitoresca ou mesmo sagaz. Mostra gente na tentativa de sobrevivência do dia a dia, explorada pelos mais fortes e tendo que tirar dos mais fracos a tentativa de manter a cabeça fora d’água.

Castel Volturno, nesse sentido, apareceu como uma locação já pronta para essa estética da desolação. É um daqueles lugares opressivos, em que toda esperança é mantida do lado de fora, como dizia Dante Alighieri na entrada do inferno em sua Divina Comédia

Nesse ambiente sujo pode reinar um tipo como Simoncino, um hércules sem ética, viciado em drogas e violência. Mas é também aí que mora sua antítese, o frágil Marcello, que lida com cães ferozes e os amansa. Marcello vive um cotidiano infeliz, no qual a possibilidade de alguma alegria resume-se em encontrar sua filha e poderem praticar o esporte que adoram, o mergulho. 

No entanto, as raras imagens idílicas são vestidas com tal carga onírica que somos levados a desconfiar que tratam mais de sonhos que de realidade. 

De qualquer forma, seriam o episódico escape de Marcello a uma realidade que o oprime cada dia mais. Não parece haver escapatória.

Frágil, ele se acerca de Simoncino em busca de proteção. É uma relação dual. O bruto tanto dá proteção como oprime. Ganha em troca sua ração de drogas e quer mais – exige cumplicidade em assaltos. A relação se desequilibra cada vez mais. 

À parte a forte trama central – o caso aconteceu, mas é aqui tratado de forma ficcional – Dogman é uma notação aguda sobre a vida atual. Em sociedades polarizadas (a Itália é uma delas), com a proximidade da anomia, do desespero e falta de confiança entre as pessoas, relações conflituosas não encontram mais mediações.

Sem intermediários críveis, a fricção é inevitável e explode em violência. Esse é o traço contemporâneo para pensar a política. Ou, melhor dizendo, a sua ausência. 

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