Netflix
Netflix

Crítica: Divertido, informativo e over, ‘A Lavanderia’ traz verdades incômodas

Filme, disponível na Netflix, tenta explicar como o planeta se tornou refém de um capitalismo financeiro que gerou a crise de 2008

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

07 de janeiro de 2020 | 08h00

Casal tranquilo, aposentado, dá um passeio de barco num lago e eis que acontece o inesperado, o barco vira. Após o acidente, a já agora viúva Ellen Martin (Meryl Streep) terá de tocar a vida sozinha. Conta com a indenização a ser paga pela companhia do serviço de barcos. Ou melhor, contava, porque, como lhe explica um advogado, o seguro foi comprado por uma companhia de resseguros e esta se encontra num paraíso fiscal e, enfim.., não há dinheiro algum à vista porque este sumiu na imensa lavanderia financeira em que se tornou o mundo.

A Lavanderia, de Steven Soderbergh (de Sexo, Mentiras e Videotape, Onze Homens e um Segredo e Che 1 e 2), é mais um entre tantos filmes que tentam explicar como e por que o planeta se tornou refém de um capitalismo financeiro que produziu a crise mundial de 2008 (a mais séria desde os anos 1930) e continuou impune e agindo como antes. Mandando em nossas vidas, gerando tempestades econômicas periódicas e surrupiando nossas economias.

A Lavanderia fixa-se num ponto qualquer entre a ficção e o documentário. Fictícios são alguns personagens, como Ellen. Outros são bem reais, como os advogados interpretados por Gary Oldman e Antonio Banderas, a dupla do escritório Mossack Fonseca.

São eles que dão início ao filme. Em atmosfera idílica e com didatismo digno de um Leo Huberman (autor do clássico da economia História da Riqueza do Homem), explicam por que o dinheiro foi inventado e sua importância nas trocas comerciais. Depois, com o aperfeiçoamento do capitalismo, vieram as ações e outros papéis, investimentos, derivados e etc., de tal modo sofisticados que já se perdeu o elo entre o lastro real e os documentos que são negociados e em tese o representam. Tornaram-se autônomos e isso para o “bem de todos”, conforme a dupla. Assim como teria sido benéfica a criação de offshores, com a finalidade de evitar impostos extorsivos dos governos. Quando a pirâmide desaba (porque é disso que se trata), eles se safam e o prejuízo vai todo para a economia real – e para as pessoas comuns, tais como a personagem de Meryl Streep.

Ao contrário de alguns papéis pintados do mercado financeiro, A Lavanderia possui valor real. Finca seu lastro no caso dos chamados Panama Papers, vazamento de milhões de dados que mostram como funcionam em nível global as operações de evasão fiscal e lavagem de dinheiro de grandes empresas. Às tantas, até mesmo a notória Odebrecht é citada, além de outras milhares de empresas, mundo afora.

Deve-se dizer que A Lavanderia é divertido e informativo. Conta verdades incômodas sobre o mundo real em tom tanto explicativo quanto satírico. No fundo, mostra uma realidade assustadora. Tem o mérito de ligar a vida de pessoas comuns às altas esferas financeiras, das quais em geral jamais ouviram falar e às quais, no entanto, se encontram conectadas, como só percebem na hora do aperto e do acerto de contas. Fica esse saldo positivo a um filme de estética um tanto brega e over.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.