EFE/ Glen Wilson/Netflix
EFE/ Glen Wilson/Netflix

Crítica de 'O Diabo de Cada Dia': Vivendo e morrendo despretensiosamente

Dirigido por Antonio Campos, o movimentado e longo filme gira em torno do claramente azarado Arvin, interpretado como adulto por Tom Holland

Manohla Dargis, The New York Times

18 de setembro de 2020 | 11h00


É um mistério onde Robert Pattinson arranjou o excêntrico tom anasalado que ele (divertidamente) usa em O Diabo de Cada Dia. Pattison interpreta um daqueles pregadores ruins que permeiam certas ficções, aqueles de fala mansa que têm a Bíblia na ponta de suas línguas bifurcadas e o pecado em seus corações atrofiados. 

Às vezes, essas almas tortuosas têm "amor" e "ódio" tatuados em seus dedos (ou pelo menos uma vez na vida assistiram ao homem profano de Robert Mitchum no noir de 1955 Mensageiro do Diabo). Por mais perversos que sejam, esses homens maus invariavelmente personificam a hipocrisia religiosa.

Ninguém está disposto a fazer o bem em O Diabo de Cada Dia, um mergulho sem pressa no tipo de mal extravagante que alguns cineastas simplesmente não conseguem deixar de lado, nem vão parar de usar. O pregador, reverendo Preston Teagardin, é o menor dos males desta história. 

No momento em que ele faz o seu pior, as juntas dos dedos foram ensanguentadas, balas disparadas, um cachorro sacrificado e um homem torturado, para listar apenas alguns dos horrores de folhetim, que também incluem uma de dupla de diligentes assassinos em série. Aqui, em uma faixa de Appalachia que se estende de Ohio a Virgínia Ocidental - uma terra de bosques verdes, pessoas brancas e clichês góticos - pouco emerge, mas tudo deve convergir.

Dirigido por Antonio Campos, o movimentado e longo filme gira em torno do claramente azarado Arvin, interpretado como adulto por Tom Holland, mais conhecido por ter interpretado o Homem-Aranha. Outra figura conhecida por fazer um personagem da Marvel, Sebastian Stan, interpreta um xerife. O filme apresenta outros rostos familiares, incluindo os de Bill Skarsgard e Haley Bennett, que interpretam os pais de Arvin. 



Eles se conheceram em uma lanchonete em Ohio, onde ela era a garçonete e ele um cliente, um veterano da Segunda Guerra Mundial. Nesse mesmo dia, um fotógrafo (Jason Clarke) conhece outra garçonete (Riley Keough). Os pais de Arvin se casaram e se estabeleceram em Ohio para seu final infeliz para sempre; o outro casal foi embora para cometer assassinatos.

A coincidência da formação desses casais divide a história em partes não muito paralelas que eventualmente se encontram novamente. Até então, Arvin enfrenta sofrimentos de todos os tipos e acaba indo morara com parentes na Virgínia Ocidental. Lá, ele protege principalmente uma ala da família (Eliza Scanlen), cuja própria história infeliz envolve uma mãe vitimizada (Mia Wasikowska) e fanáticos seguidores da Bíblia odiosamente malévolos. 

De vez em quando, os assassinos em série aparecem brevemente para que Keough possa mudar o tom do filme. As coisas realmente ficam mais intensas para Arvin quando o reverendo Teagardin chega à cidade, menosprezando seu rebanho e vestindo uma camisa com babados que não fica branca por muito tempo.

Adaptada do romance de Donald Ray Pollock por Campos e seu irmão, Paulo Campos, a narrativa é organizada em torno de uma série de catástrofes violentas. Há uma sugestão de que a guerra desempenha um papel nesses desastres, evidenciada por um flashback terrível da Segunda Guerra Mundial e uma menção ao Vietnã

 


Mas como tudo no filme - incluindo a pobreza - a guerra é algo que as pessoas suportam, como o mau tempo. Apesar do sábio narrador (interpretado por Pollock) que adiciona vislumbres muito bem-vindos de distanciamento irônico, há pouca sensação de que as pessoas neste mundo fazem qualquer coisa além de sofrer ou causar o sofrimento dos outros entre trabalhar, ir à igreja e ocasionalmente ter bebês.

Campos, cujos filmes incluem Christine: Uma História Verdadeira, sempre foi um artista competente, e tudo em O Diabo de Cada Dia parece e soa profissionalmente projetado. As imagens são bem iluminadas e têm forma e textura, e a música e a sonoplastia são igualmente bem pensadas. (O veterano supervisor musical Randall Poster é um dos produtores.) 

Cada vestido desbotado parece cuidadosamente ajustado, cada casa em ruínas artisticamente desgastada. Se as performances são consideravelmente menos persuasivas, é em parte porque Campos não mostra nenhum interesse pela vida interior de seus personagens. E enquanto os papéis de Pattinson e Keough são risíveis, os atores pelo menos mostram sinais de vida (cômica).

Campos está interessado no mundo de Arvin ou, especificamente, em suas crueldades, mas ele não demonstra nenhuma curiosidade real em relação a cidade ou seus habitantes. Uma descrição inicial da cidade natal de Arvin na infância oferece uma rara visão mais longa dessas pessoas, "quase todas elas conectadas por sangue por meio de uma calamidade ou outra esquecida por Deus", diz o narrador, uma citação direta do romance. 

Essa consanguinidade talvez explique por que não há personagens negros na tela, embora haja alguns no romance, mencionados de passagem. Seja qual for o caso, como resultado de toda a dor e angústia, todo o drama e trauma geracional, é vivido apenas por pessoas brancas, uma das poucas escolhas de direção aqui de real importância.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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