Reprodução de cena de 'The Many Saints of Newark' (2021)/Warner Bros. Pictures
Reprodução de cena de 'The Many Saints of Newark' (2021)/Warner Bros. Pictures

Crítica de 'Many Saints of Newark': O Melhor Acabou

Spin-off de 'Família Soprano' traz Michael, filho de James Gandolfini, o Tony Soprano original, como protagonista

Manohla Dargis, The New York Times

02 de outubro de 2021 | 15h00

Tony Soprano, o chefe da máfia em Família Soprano era muitas coisas: marido, pai, amante dos animais, mulherengo, capitalista sociopata, sensação da cultura pop. Os americanos gostam de ver um outro lado de seus vilões, e Tony sofria um turbilhão interno, manifestado em ataques de pânico, quando tinha sangue nas mãos. Um mafioso na terapia - com nada menos que uma analista sexy - criava uma tensão narrativa abundante, assim como suas gangues e grandes famílias. Dito isso, Tony era uma destilação perfeita de duas grandes paixões americanas: aprimoramento pessoal e como safar-se de assassinatos.  

Criado por David Chase, Família Soprano desbotou para uma escuridão enigmática em 2007, embora resista, mesmo na HBO, seu lar original por seis temporadas. Como regra, usamos o tempo presente quando escrevemos sobre ficção: os personagens existem no presente eterno, ou essa é a ideia. Mas a morte de James Gandolfini, que interpretou Tony, complicou isso porque ele e a série eram intercambiáveis. Com sua expressividade lúcida, fascinante e um físico forte e poderosamente ameaçador, Gandolfini deu corpo à luta interior de Tony, preenchendo uma caricatura em potencial com alma e, por extensão, trazendo muita profundidade à série. Por conta de sua ausência penso nesse personagem de destaque no passado.

É também a razão pela qual o spin-off  The Many Saints of Newark, uma história movimentada, desnecessária e decepcionantemente comum, não funciona. O filme certamente tem pedigree. Foi escrito por Chase com Lawrence Konner, que escreveu alguns episódios de “Família Soprano”, e dirigido por Alan Taylor, outro veterano da série. Saltando períodos de tempo, segue a educação sentimental (moral e emocional) do jovem Tony, que em 1967 é um pirralho interpretado por William Ludwig. Após muitas introduções e desenvolvimentos do enredo, a história salta para Tony aos 16, agora interpretado pelo filho de Gandolfini, Michael, que tem uma semelhança impressionante com seu pai.

O filme pretende mostrar como e por que a criança se tornou o homem que nunca vemos, mas que projeta uma sombra profunda. Seguir sua trajetória evolutiva será mais fácil para os que assistiram Família Soprano, semana após semana, por 86 episódios de desenvolvimento detalhado, íntimo e explicativo de um personagem. Qualquer que seja sua familiaridade com a série, logo você irá imaginar por que os cineastas decidiram preencher o passado de Tony com um mergulho em seu relacionamento com um pai substituto sombrio e clichê ao invés de, digamos, sua monstruosa mãe, Livia (imortalizada na série por Nancy Marchand e interpretada aqui por Vera Farmiga com uma admirável prótese de nariz)

O pai simbólico de Tony em Saints é Dickie Moltisanti (Alessandro Nivola, que não consegue segurar o centro do filme) um mafioso sem muita importância e pai do pupilo adulto de Tony, Christopher, o primo distante problemático e viciado em drogas interpretado por Michael Imperioli. Dickie nunca apareceu em Família Soprano, mas no filme desempenha papéis cruciais como o campeão de Tony e um progenitor do mafioso violento e emocionalmente confuso que Tony se torna depois. Nunca fica claro por que Dickie se apega à criança, a não ser porque traz a Tony um substituto narrativamente conveniente e relativamente benigno para seu pai mais violento e frequentemente ausente. Na verdade, Dickie é um novo brinquedo com o qual os cineastas podem brincar.

Que pena que ele apareceu. Um amálgama de clichês de mafiosos embrulhados em um pacote apropriado de época, Dickie entra em um campo lotado de mafiosos do cinema que raramente são tão interessantes como seus criadores acreditam. Ele tem todos os pré-requisitos, do carro estiloso aos ternos elegantes, e aparece sobrecarregado com o trabalho e problemas com mulheres. Algumas dessas dores de cabeça produzem tensão e prometem interesse, notadamente o relacionamento de Dickie com um inquieto empregado negro, Harold McBrayer (um nuançado e raivoso Leslie Odom Jr.), cuja insatisfação é espelhada, ou pretende ser, pelos distúrbios baseados no que aconteceu em Newark, New Jersey, em 1967, após a prisão de um homem negro.  

Tanto o destaque a Harold quanto os relativamente poucos insultos racistas que surgem aqui são uma marca dos diferentes climas culturais no qual o filme e a série estrearam. Os mafiosos vão agir como mafiosos (bada-bing), mas a linguagem que usam e os barbarismos que cometem foram atenuados. E quando o filme tenta trazer questões raciais, seus esforços são fracos e cautelosos. Em contraste, as mulheres continuam as mesmas esposas irritantes, filhas obedientes e namoradas gostosas, conhecidas como goomahs (bada-boom). A mais relevante é uma beldade, Giuseppina (Michela De Rossi), trazida da Itália pelo pai de Dickie (Ray Liotta) para ser sua esposa; principalmente, ela aparece para gerar conflito e causar problemas edipianos.

Spin-offs de filmes podem ser difíceis de realizar. Nada pareceu em risco quando assisti, ah, o primeiro filme Brady Brunch, mas seu material de origem não era um fetiche crítico, algo que inspirou discussões animadas sobre masculinidade, a última era de ouro da televisão e os efeitos no setor. Família Soprano, ao contrário, era muito boa, muito memorável, e sua presença no imaginário popular continua inabalável. Ainda joga um feitiço, e o filme sabe disso, é por isso que utiliza o modelo cansado da história de um menino ao invés de fazer uma virada radical, como revisitar o mundo de Tony do ponto de vista de Giuseppina, Livia ou Harold. No final, o melhor de The Many Saints of Newark é que faz com que você pense sobre Família Soprano, mas isso também é o seu pior. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES 

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