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Crítica: Clint Eastwood cria, em 'Sully', uma epopeia sobre o herói e outros que fazem a diferença

Filme estrelado por Tom Hanks estreia no Brasil nesta quinta-feira, 15

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2016 | 06h00

Clint teve dois grandes mestres – o italiano Sergio Leone e o norte-americano Don Siegel. Para o primeiro, criou o Estranho Sem Nome numa série de spaghetti westerns que deram nobreza ao gênero. Para o segundo, interpretou seu mais polêmico personagem – Dirty Harry, o tira chauvinista que as feministas adoravam odiar nos anos 1970, confundindo-o com o astro.

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O Estranho e Harry são individualistas ferrenhos, e por essa via foi Clint, o diretor. Bird, o cineasta de Coração de Caçador, o pistoleiro de Imperdoáveis. Mas algo houve, e veio com a idade. Enquanto outros se isolam, o velho Clint tem se aberto para o coletivo. Um grupo de astronautas, uma equipe de rúgbi, uma banda. Vários de seus filmes mais recentes são, de alguma forma, odisseias de grupos e aí o mestre, mesmo inconsciente, é o maior de todos, o Zeus do Olimpo de Hollywood – John Ford. Até quando, na última fase, retrata a tragédia de um solitário – em American Sniper –, Clint é fordiano, buscando referência em Rastros de Ódio/The Searchers.

John Ford tem filmes de aviação em seu currículo. Biografou o lendário Frank ‘Spig’ Wead em Asas de Águia, logo depois de Rastros de Ódio. Clint conta agora a história do comandante Chesley B. Sullenberger, o herói do rio Hudson. Numa manobra arriscada, ele salva a vida de 155 pessoas ao arremeter para as águas geladas do rio. Como diz Sully: “O voo 1549 não foi uma viagem de apenas cinco minutos. Minha vida inteira me levou àquele lugar”. Na ficção de Clint, ele é colocado em xeque. Uma investigação quer desmontar seu heroísmo, mostrar que blefou e foi bem-sucedido, mas destruiu a propriedade (o avião), como poderia ter destruído todas aquelas vidas.

O filme é sobre um homem que luta por sua reputação, pela família, pela tripulação. Ao contrário da grandeza dos derrotados, o mais fordiano dos temas, é sobre a fragilidade da vitória. Sully só consegue dar a volta ao descobrir do que, afinal, trata sua história. É sobre ‘timing’. E não é só sobre o homem certo naquela hora, naquele lugar. É sobre todos os outros que se uniram para fazer a diferença. Uma bela epopeia fordiana. E, sim, Tom Hanks é, mais uma vez, maravilhoso. O único problema é o timing no Brasil. Um filme sobre acidente aéreo dificilmente deve ser o que o público quer ver.

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