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Crítica: 'BR 716' ressalta a eterna juventude de Domingos Oliveira

Longa remete à juventude do cineasta no início dos anos 1960

O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2016 | 05h00

Domingos Oliveira sempre foi ponto fora da curva nas tendências dominantes do cinema brasileiro. Na época engajada do Cinema Novo, falava de amor e de liberação dos costumes no antológico Todas as Mulheres do Mundo, com Leila Diniz e Paulo José. Sua carreira é baseada em motivações pessoais, sem dar muita bola para os modismos ou imposições de cada época.

Barata Ribeiro 716 remete à juventude do cineasta no início dos anos 1960. O endereço é o da rua em Copacabana onde ele tinha um movimentado apartamento. Felipe (Caio Blat) é seu alter ego. Ficamos sabendo que o imóvel havia sido presente do pai (Daniel Dantas), e Felipe o aproveitou não apenas para morar e dar início a uma carreira de escritor e artista, mas para usá-lo como sede para uma festa permanente.

Filmado em preto e branco, o filme acompanha a história do jovem namorador e aspirante às artes vivido por Caio Blat. Enquanto oscila de amor em amor, suas angústias existenciais crescem e essa inquietação não pode ser abafada mesmo na festa continuada regada a álcool (e outros aditivos), música, amigos e mulheres bonitas.

Por outro lado, o apartamento é como um oásis a proteger as pessoas da turbulência do lado de fora. Um Brasil, dividido como o de hoje, exaspera-se em posições políticas inconciliáveis, que culminariam com um golpe de estado, a deposição do presidente João Goulart e sua substituição por um governo militar. Não é, no entanto, um oásis perfeito, e as emanações do social infiltram-se no delírio da festa e a comprometem. Por paradoxo, talvez seja o mais político dos filmes de Domingos Oliveira, como se, na alta maturidade, pudesse assimilar o social ao tecido particular das suas inquietações pessoais. Tudo isso ao lembrar do passado e da juventude.

Lembrar tem aqui significado específico. Domingos brinca (em parte) ao dizer que vivia tão bêbado naquela época que esqueceu tudo. E, portanto, teve de inventar tudo. Ou boa parte do que recorda. OK. Mas, excessos etílicos à parte, a recordação é sempre um pouco desse jeito. As sobras de memória são reelaboradas de modo a reconstruir o passado.

Ao revisitar o passado, somos arqueólogos que trabalham com ruínas e, a partir delas, reconstroem o edifício inteiro, do qual sobraram algumas paredes, algumas pedras, ou às vezes nem isso. Não é preciso ter lido Proust ou Pedro Nava para saber disso (embora Domingos tenha lido os dois, intelectual que é). Basta visitar o cinema de Federico Fellini, de quem Domingos é fã confesso. Os filmes de Fellini são memorialísticos (como os clássicos 8 ½ e Amarcord). Mas são memórias recicladas a partir da verdade, com traços de invenção e criação. As de Domingos são assim também.

Mas por que um filme nos envolve a ponto de nos sentirmos participantes da trama? Por muitos motivos, entre eles, sem dúvida, a entrega dos atores ao projeto. Caio Blat está brilhante, com uma entonação que nos faz adivinhar como falava Domingos quando jovem.

Tudo, da fala à expressão corporal, revela esse desejo de incorporar-se no personagem até a última de suas modulações anímicas.

O mesmo se pode dizer de Sophie Charlotte, linda, sedutora e envolvente no papel de Gilda, e que tem em Leila Diniz seu provável modelo. Mas o ardor do duo seria inócuo não fosse a entrega de todos os outros envolvidos no projeto, esforço que dá ideia do carisma de Domingos ao dirigir uma equipe. É filme à altura das melhores criações do artista e comprova a eterna juventude dos que sabem se reinventar.

 

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