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Crítica: '@Artur.Rambo' capta o ressentimento dos que se julgam deixados para trás

Em seu perfil falso, dava voz a personagem odioso, mas que expressava o que muitos sentem, ele diz

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estadão

12 de maio de 2022 | 05h00

O filme de Laurent Cantet pode ser resumido, em uma frase, como a história da ascensão e queda de um herói das redes sociais. Inspirado num caso real – o de Mehdi Meklat –, começa por apresentar o jovem escritor que, no auge do sucesso, tem seu perfil falso no Twitter revelado ao público. Karim D. (Rabah Naït Oufella), que comove todos ao escrever de forma humanista sobre a vida de sua mãe, uma imigrante que mora no subúrbio, é também o autor, sob pseudônimo de Arthur Rambo, de um inesgotável repositório de racismo, antissemitismo, sexismo, incitação à violência, misoginia e preconceitos lançado em sua conta do Twitter. Na qual, diga-se, tem 200 mil seguidores. 

Cantet mais uma vez tenta tomar o pulso das contradições contemporâneas. Desta vez, dos impulsos extremos de ódio estimulados pelos “likes” das redes sociais. 

Com sentido de síntese, Cantet faz um filme compacto, denso, sem tempos mortos. Busca registrar a tensão jornalística do caso envolvendo o escritor. Consagrado pela mídia, será destruído por ela. 

Há um detalhe, porém, que torna a experiência de Karim mais inquietante. Ao contrário de celebridades pegas em flagrante delito de opinião, ele não providencia um rápido pedido de desculpas para se safar do cancelamento. Em vez disso, reafirma que em seu perfil falso dava voz a um personagem, por certo odioso, mas que expressava o que muitos sentem na sociedade. Daí o grande número de seguidores, que se identificam com suas ideias. O perfil podia ser falso, mas o ódio era verdadeiro. 

O que motiva Karim, além disso? A rede é uma droga, ele admite. Cada curtida é adrenalina na veia. Tuitar é viver. Mesmo que perigosamente. Ou talvez por isso mesmo. A estrutura das redes leva a essa tensão entre o provocativo e a convocação aberta a atitudes violentas. 

É uma conclusão terrível – a de que a guerra do ódio encontra nas redes sociais seu hábitat, mas trabalha sobre algo já latente – o ressentimento dos que se julgam deixados para trás pela sociedade.

COTAÇÃO: ÓTIMO 

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