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Fred Jordã
Cena do filme 'Acqua Movie', de Lírio Ferreira, com Alessandra Negrini Fred Jordã

Crítica: 'Acqua Movie' é um filme de estrada, que também discute questões indígenas

Acqua Movie fala de coisas sérias, mas não perde o humor, como era típico do ser brasileiro antes que as coisas desandassem e ficassem tão exasperadas por aqui

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2021 | 05h00

Acqua Movie, do cineasta pernambucano Lírio Ferreira, ficou pronto em 2019 e só estreia agora. O atraso é consequência da pandemia, mas, como se verá, ele entra em cartaz em momento ainda mais oportuno. Com a devastação acelerada das florestas brasileiras e o cerco crescente aos povos indígenas, Acqua Movie pode ser considerado um filme da hora. Seus temas principais – meio ambiente e indígenas – são enlaçados pela questão primordial da nossa identidade e sobrevivência. Quem somos, de onde viemos, a quem somos aparentados? Qual país restará para viver depois de passada a catástrofe que ora nos assola?

Acqua Movie não é um filme de tese, e nem sequer desesperado ou distópico, como se poderia supor, embora não sonegue imagens fortes ao espectador. Um exemplo é o leito morto de um rio, um cânion tanto belo quanto tétrico, filmado em plano-sequência. Põe em destaque o relacionamento entre uma mãe e um filho pré-adolescente. Duda (Alessandra Negrini) é uma ambientalista e documentarista que vive viajando para fazer seus filmes e não tem lá muito tempo para a família. O marido morre e o filho a convence a levar as cinzas do pai para seu lugar de origem, no Nordeste, onde ele teria manifestado desejo de ser enterrado. 

Um road movie, portanto, marcando a longa viagem de carro entre São Paulo e o interior de Pernambuco, onde se encontra a cidade natal do pai. Ou melhor, onde se encontrava, já que foi alagada na transposição das águas do Rio São Francisco. Ao lado, outra cidade foi criada – a agora afluente Nova Rocha, comandada pelo irmão do pai, eleito prefeito. 

Essa viagem serve também como uma espécie de rito de passagem para o garoto Cícero (Antonio Haddad). Ele é muito ligado à imagem do pai morto (Guilherme Weber), um jornalista de TV famoso. Hostiliza a mãe, sempre dedicada “aos seus índios”, relegando a família a segundo plano. Ao chegar à fazenda em Nova Rocha, se deixa seduzir pelo poder do tio, o sedutor e às vezes ameaçador Múcio (Arnaldo Madeira). E pela promessa de que herdaria, no futuro, tudo aquilo. 

Há aí uma engenharia narrativa interessante. Passa pelo que poderíamos chamar de emancipação emocional de um garoto. O trabalho da mãe, em contato com indígenas, lhe parece abstrato e até egoísta. Quando ele mesmo conhecer a realidade, terá outra visão sobre a mãe e seus valores. É um processo de crescimento e reavaliação de perspectivas.

Se passarmos para outro plano, mais geral, podemos imaginar o processo de amadurecimento do jovem Cícero como correspondendo a algo que falta à população brasileira em seu conjunto. Ou, pelo menos, a uma enorme parcela dessa população, que julga os recursos do planeta inesgotáveis, supõe que tudo pode ser destruído em nome do lucro e que povos originários não têm qualquer direito, são preguiçosos e devem ser mensurados em arrobas, como os quilombolas. Aqui, coloca-se em xeque não mais o contraste entre o Brasil moderno e o arcaico, mas o arcaísmo que se deseja passar por moderno. 

Essas inquietações críticas não tomam a forma de teses. Deslizam pela narrativa, de modo natural e nada impositivo. Há uma posição do autor e esta é clara e visível. Mas nem por isso adota o tom professoral de “mensagem” ou de ordenação moral. Lê nas entrelinhas quem quiser. Ou puder. Caso contrário, fique apenas com uma história muito bem contada. 

Mesmo porque Lírio é o que chamamos de “bicho de cinema”. Alguém capaz de articular em imagens toda a estrutura narrativa, dispensando muletas discursivas inúteis. O filme é todo cheio de ritmo (montagem de Vânia Debs) e muito bem fotografado (Gustavo Habda). Gostoso de ver. 

Quem conhece o trabalho anterior do cineasta sabe do seu amor pelo cinema e conhece esse estilo cheio de bossa. Lírio é coautor, com Paulo Caldas, de Baile Perfumado (1997), um dos filmes decisivos da Retomada, vencedor do Festival de Brasília. Em direção solo, fez a ficção Sangue Azul (2014), rodada em Fernando de Noronha, e assina os notáveis documentários musicais Cartola (2007) e O Homem que Engarrafava Nuvens (sobre Humberto Teixeira, de 2009). Acqua Movie é continuação e contraponto de seu Árido Movie, de 2004. 

Trabalho de cinéfilo, Acqua Movie é pontuado de homenagens e referências internas. Estrelado por uma paulistana (Negrini), traz em pequenos porém marcantes papéis atrizes emblemáticas do Nordeste, como Marcélia Cartaxo e Zezita Matos. Dois diretores da região fazem pontas. Uma, um pouquinho maior, com direito a fala, do diretor baiano Edgard Navarro, como dono de um boteco ribeirinho. Outra, apenas de passagem, com o cineasta pernambucano Cláudio Assis, como o governador do Estado presente ao enterro fake do ilustre filho da cidade de Rocha. 

Acqua Movie fala de coisas sérias, mas não perde o humor, como era típico do ser brasileiro antes que as coisas desandassem e ficassem tão exasperadas por aqui. Numa passagem da história, há um diálogo hilário entre o coronel-prefeito e seu jagunço a propósito do Bolero, de Ravel. Puro nonsense, à la irmãos Marx. O cinema de Lírio é líquido e certo. 

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'Acqua Movie', de Lírio Ferreira, aborda do coronelismo à transposição do Rio São Francisco

Filme é como um sucessor espiritual de 'Árido Movie', longa do diretor de 2004

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

11 de junho de 2021 | 05h00

Há tempos, na verdade desde seu primeiro longa – Baile Perfumado, codirigido com Paulo Caldas –, Lírio Ferreira queria trabalhar com Alessandra Negrini. As agendas não coincidiam. Finalmente se acertaram, e ela está no centro de Acqua Movie, o novo longa de Lírio, que estreou nos cinemas na quinta-feira, 10. Pode ser motivo de polêmica dizer que se trata da melhor ficção do autor, mas é. Árido Movie, de 2004, foi um filme importante de Lírio. Não foi um estouro de bilheteria, mas o culto não vem daí. 

“O Árido pertence a um momento marcante de minha vida, é um filme pelo qual tenho muito carinho. Caetano (Veloso) disse que é um filme com muitas portas, e que ele não sabia se queria abrir todas. Eu concordo, não é um filme que eu quisesse revisitar, mas aí ocorreu uma coisa curiosa. Há uns dez anos, fui com amigos a um festival na cidade de Triunfo, no interior de Pernambuco. Fomos de carro e, pela primeira vez, cruzei com as obras da transposição do Rio São Francisco. Fiquei fascinado e foi a partir dali que os personagens do Árido começaram a me assombrar.” 

A questão da água – do árido para o Acqua. Lírio brinca dizendo que é um filme kardecista. “Muitos personagens do Árido voltam, interpretados por outros atores.” No final do filme, Giulia Gam, a Soledad, está grávida e aquele filho agora é da Alessandra (Negrini). Como sabia que não ia ter a Giulia, Soledad virou a Duda, que agora vive separada do Guilherme Weber.” O novo filme abre com uma discussão entre ambos por telefone. O Homem do Tempo/Weber cobra mais atenção da ex-mulher para o filho. Duda está distante, na Amazônia, fazendo um filme de índios. 

O Homem do Tempo morre, o filho é forçado a conviver com a mãe. Caem na estrada – segundo o garoto, o pai queria ser enterrado em Rocha, mas a cidade foi soterrada pelas águas e existe agora Nova Rocha. Mais que uma sequência de Árido Movie, Acqua talvez seja um reboot. Weber volta ao Nordeste para o enterro do pai, no filme anterior. Cícero – seu filho – agora viaja às origens para também enterrar o pai. “Por mais que ele interagisse, na estrada e em casa, a odisseia de Jonas/Homem do Tempo era solitária, individual. Agora mãe e filho vão viver uma experiência transformadora para ambos. Cícero chega a acusar a mãe de preferir ‘seus’ índios a ele. A viagem proporciona uma espécie de (re)descoberta do Brasil, e do amor entre ambos.

Momento ímpar é quando o carro corre paralelo a um cânion, e a câmera de Gustavo Hadba – o diretor de fotografia que substitui Murilo Salles, do primeiro filme – se desloca para o interior do gigantesco canal. “A água era mínima, agora tudo aquilo está inundado, como a cidade. Só sobrou a estrutura da igreja.” Embora o gatilho tenha sido aquela viagem a Triunfo, Acqua só começou a tomar forma anos depois, quando Lírio viajou ao sertão para escrever o novo filme com os amigos Marcelo Gomes e Paulo Caldas. “Numa encruzilhada, tivemos um choque. Naquela desolação imensa havia um painel anunciando a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Para nós, ele era um candidato folclórico, como havia sido o Enéas. Quando estreamos no Festival do Rio, já vivíamos a tragédia desse Brasil sob Bolsonaro.” 

Para expressar essa nova era, surgiu o personagem do prefeito, interpretado por Augusto Madeira. Intimidador, ele quer transformar o enterro do Homem do Tempo num evento partidário. Tenta cooptar o sobrinho. Alessandra volta à estrada, em busca da terra dos índios, onde o próprio Cícero terá sua revelação. “As coisas foram se ajustando. Eu queria a Alessandra e dessa vez consegui. Para o Cícero, terminei usando o Antônio Haddad, que pertence a uma família de artistas de São Paulo, meus amigos. Eu o conhecia desde pequeno, e ele, aos 7 anos, já me enquadrava – ‘Tio Lírio, quando vai ter um papel para mim?’ Vê-lo atuar com a Alessandra foi um grande prazer.” 

Ela conta: “Surgiu no meio do caminho uma novela, mas dessa vez eu disse que tinha o filme e queria fazer. Foi uma questão de ajustamento de datas. Quanto ao Antônio (Haddad), tenho dois filhos e a Betina é mais ou menos da idade do Cícero. Usei muito da minha experiência como mãe para o papel”. O cinéfilo de carteirinha há de lembrar da frase final de Baile Perfumado: “Os inquietos hão de mudar o mundo”. Essa inquietude faz parte do temperamento do diretor. Os amigos tiram sarro e dizem que um filme de Lírio é muitas vezes, senão sempre, um delírio. 

Árido era mais irregular, a inquietude tinha de ser gritada. Acqua investe mais no afeto. Música (de Antônio Pinto, que também é um dos produtores), fotografia (do já citado Gustavo Hadba) e montagem (de Vânia Debbs, que tem sido parceira de Lírio) harmonizam-se de tal maneira que o filme flui como um rio na vida dos personagens (e dos espectadores). O próprio título, Acqua, em vez de Árido, já significa muito. “Ao colocar na tela uma mãe e um filho em busca da reconstrução do afeto num mundo caótico, é claro que o filme tinha de ter essa pegada.” 

O afeto transborda. Assim como tinha José Celso Martinez Correia em Árido Movie, Lírio tem agora Edgar Navarro no Acqua. Transgressores geniais, eles o inspiram como artistas e pessoas humanas. “E tem o Ruy Guerra em Sangue Azul, que filmei em Noronha”, ele lembra. O afeto, como a água, está presente em todo o filme, desde a morte do pai, naquele chuveiro. 

De novo é um filme com muitas camadas – o amor de mãe e filho, o coronelismo, os índios, o conflito entre o arcaico e o moderno. “Pra gente, Paulo, Marcelo e eu, escrever em loco, no sertão, foi decisivo para que todas essas camadas entrassem organicamente, de forma natural, na nossa história.” 

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