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Crítica: '45 Anos' faz visita inesperada a esse país estrangeiro que é o passado

Longa é dirigido por Andrew Haigh

Luiz Zannin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2015 | 06h00

O escritor britânico L.P. Hartley dizia que o passado era um país estrangeiro. Como ele viveu antes da globalização (1895-1972) podia afirmar que em países estrangeiros as coisas eram feitas de modo diferente. Pois bem, é dessa terra estranha, o passado, que Geoff Mercer (Tom Courtenay) recebe uma carta, comunicando-lhe que o corpo de uma antiga namorada fora encontrado nas neves. Ela morrera num acidente 50 anos atrás. No passado. No presente, Geoff está casado há 45 com Kate (Charlotte Rampling) e ambos preparam a festa para comemorar a data. Quer dizer, além de terra estrangeira, o passado é como uma faca que atravessa e secciona o presente. Este é plot de 45, filme de Andrew Haigh baseado em conto de David Constantine.

É um trabalho de sutilezas, porque precisa dar conta dessa intrusão do passado no presente e da maneira como altera a vida do casal. Ambos aposentados, vida pacífica, bons amigos e relacionamento estável. De repente, bem, tudo continua na mesma, mas de maneira alguma tudo permanece igual. Algo despertou em Geoff, mas também em Kate. Nele, talvez, a nostalgia do antigo amor. Nela, os ciúmes retrospectivos que, dizem os especialistas, são impossíveis de combater justamente porque protegidos no tempo e no espaço.

A tarefa de Kate não é fácil. Aliás, é impossível. Como rivalizar com uma morta? Ainda mais com uma morta de 50 anos, portanto inatacável, alojada no tal país estrangeiro do passado? De modo que, apesar de tudo, será preciso ruminar esse passado alheio, buscar pistas e mortificar-se com cartas e lembranças depositadas no sótão. Viver com isso e tocar adiante, mesmo que, num momento de intimidade, ela se sinta tentada a perguntar ao marido o que teria acontecido caso o antigo amor não tivesse morrido tão jovem. É o tipo de pergunta que não se deve fazer, e, quando se faz, espera-se pela mentira e nunca pela verdade. Esse deslocamento subjetivo, lembra, de certa forma, aquele do conto de James Joyce, Os Mortos. O conhecimento de um amor do passado altera o amor do presente, sutil que é a alma humana.

Isso tudo para ilustrar o tônus desse filme delicado, que se dá numa cadência suave, carregada de silêncios e alguns subentendidos. O estilo é clássico, não acadêmico. E se sustenta, em grande parte, na afinadíssima dupla composta por Tom Courtenay e Charlotte Rampling, ambos veteranos. Conferem grau preciso de emoção à história desse casal. Não por acaso, venceram os prêmios de interpretação masculina e feminina em Berlim. O trabalho dos dois é tão bom que, mesmo não conhecendo seus concorrentes em Berlim, pode-se botar a mão no fogo e garantir que os prêmios foram justos.

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