"Crash - No Limite" narra uma experiência traumática

Há quase dois anos, Paul Haggis foi vítima de um seqüestro-relâmpago em Los Angeles. Com uma arma apontada para a cara, o então diretor de televisão e sua mulher rodaram durante horas pela cidade antes de serem soltos. A experiência foi traumática e inspirou Crash - No Limite, sua estréia na direção de cinema. "Fiquei pensando naquilo muitos dias", disse ele, em entrevista ao Estado, por telefone, de uma produtora em Nova York, onde está concluindo seu mais novo projeto. "Ficava tentando imaginar quem eram aqueles rapazes que enfiaram a arma na minha cara. Sonhava com isso e acordava no meio da noite para escrever." Haggis procurava se colocar, por exemplo, na situação dos imigrantes hispânicos que sofrem o preconceito das famílias americanas de classe média. "O que eu faria se fosse um chaveiro latino, contratado para mudar as fechaduras de uma mansão e acabasse sendo maltratado pela dona da residência?", raciocinou. A cena acima está no filme. É o momento em que Sandra Bullock, logo depois de sofrer um assalto ao lado do marido, um figurão interpretado por Brendan Fraser, desconfia do rapaz hispânico que troca a fechadura da porta da frente de sua casa. E não faz a menor questão de ser discreta. Há quem veja na proposta de situações como esta uma discussão saudável em torno das diferenças. Mas há quem veja também uma porta perigosamente aberta para o preconceito. "As pessoas estão muito acostumadas com o modelo do filme hollywoodiano, em que os personagens bons e os vilões são bem definidos", explica ele. "A realidade é muito mais complexa e era isso que eu pretendia mostrar: ninguém é inteiramente bom ou mau." O clima de terror, a desconfiança generalizada e os julgamentos apressados que passaram a caracterizar a sociedade americana sob o governo de George W. Bush também foram inspiradores. Para evidenciar tudo isso, Haggis decidiu retratar, entre os seis personagens do núcleo central, representantes de várias etnias. E aqui, talvez, esteja o maior limite do filme: um certo esquematismo. "Foi por causa desse clima, que se estabeleceu no país depois do 11 de setembro de 2001, que eu quis transformar essa história em filme", disse ele. "Estamos julgando as pessoas pelo que parecem e não por aquilo que são de verdade. Todo mundo virou suspeito e, aí sim, caímos no preconceito. Por isso, coloquei os personagens coreanos. Basta ter olhos puxados, que chamamos de chineses." Na mesma época em que rodou Crash por cerca de US$ 6 milhões, Haggis estava trabalhando na pré-produção do que seria o seu segundo filme, Menina de Ouro, com um orçamento também modesto. Hillary Swank e Morgan Freeman já haviam se comprometido, só faltava o ator que faria o treinador Frank. "Eu havia mandado o roteiro para Clint (Eastwood), esperando que aceitasse o papel", conta. "Quando ele me ligou, foi para dizer que gostaria de dirigir o filme. E, nesse caso, não deu para recusar." As estréias de Haggis no cinema lhe renderam novos - e bons - trabalhos - especialmente como roteirista. Ele está acompanhando as filmagens de Flags, drama sobre a 2ª Guerra Mundial dirigida também por Eastwood. E está escrevendo o roteiro da nova versão de Casino Royale, a primeira aventura do novo James Bond, Daniel Craig, que aprovou. "Eu escrevi o roteiro pensando nele como ator." Crash - No Limite (Crash, EUA-Alem/2004, 113 min.). Drama. Dir. Paul Haggis. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Regular

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