Coutinho ouve o morro no réveillon de 2000

O espetáculo de queima de fogos mais bonito do Brasil acontece todo réveillon em Copacabana, no Rio. No bairro, só dois lugares privilegiam completamente o observador, dando a oportunidade de contemplar o balé sincronizado do estouro de luzes e cores por toda a extensão da orla: o mar, que no dia 31 de dezembro parece mais um estacionamento de iates e veleiros; e do outro lado o morro da Babilônia, que oferece gentilmente aos seus moradores talvez a mais bonita das vistas. E é este morro - onde ficam as duas únicas favelas de Copacabana - que o diretor Eduardo Coutinho escolheu para fazer sua passagem de 1999 para 2000. Comemorou trabalhando na filmagem do documentário Babilônia 2000, que estréia nessa semana nos cinemas. Incisivo e sincero, Coutinho mostra em seu novo filme o cotidiano dos moradores dessas duas favelas, Chapéu Mangueira e Babilônia, ao longo do último dia do ano.Babilônia 2000 é um filme seco, bruto, sem trucagens - tal qual Santo Forte, documentário que Coutinho realizou em 98, mostrando a religiosidade dos moradores de uma favela da Gávea, também no Rio. Passou por uma metodologia diferente de trabalho, depois de uma pesquisa prévia que definiu o trabalho básico que seria realizado ao longo do dia 31 de dezembro. Cinco equipes se dividiram na subida ao morro à procura de personagens. Uma foi liderada por Coutinho, e outras quatro eram organizadas por Cristiana Grumbach, Daniel Coutinho, Geraldo Pereira e Consuelo Lins, creditados como "diretores de filmagem".Na primeira cena do filme, na narração de seu autor, é feita essa explicação. Na verdade, é uma apresentação. Essa agilidade permitiu alcançar histórias comoventes, sobre candomblé, budismo, samba, valsa, Juscelino Kubitchek, Janis Joplin, vidas e mortes, em mais de 70 depoimentos durante 12 horas, num corte final de 80 minutos. "Nesse filme não acontece nada. Os acontecimentos são verbais, e eu acho isso maravilhoso", diz Coutinho, com razão.Também como o filme anterior, Babilônia foi rodado inteiramente em câmera digital, que segundo o diretor foi a ferramenta que possibilitou o projeto. "Um filme desse nunca seria possível com câmeras 16 milímetros, subindo e descendo por vielas com grandes equipamentos de luz e som", explica. Segundo ele, a mobilidade da câmera digital que tem permitido essa nova linguagem cinematográfica, que vem explorando desde Santo Forte, é na sua concepção uma verdadeira revolução estética. "Esse equipamento entra na casa do personagem e visita sua vida a fundo, garantindo qualidade de som e imagens impressionantes. É um contato táctil, a câmera quase apalpa a pessoa".Por esse formato peculiar, Coutinho teve dificuldades de conseguir o financiamento de R$ 27 mil para o projeto. "Se não tivesse o João não teria filme. Simplesmente todo o financiamento da produção até a conversão para película, foi da VideoFilmes", lembra Coutinho, referindo-se ao documentarista João Moreira Salles e a produtora que mantém junto à Walter Salles.Coutinho diz que Salles confiou num projeto que nenhuma instituição confiaria, por não apresentar um roteiro e nem mesmo uma idéia estável e confiável, em termos de investimento. Numa produção que pretende registrar a esperança dos moradores de duas favelas cariocas sobre o próximo milênio, realizada num único dia, as chances de falha parecem maiores. Por isso o projeto foi recusado pelo concurso para documentários do Ministério da Cultura e da Fundação George Soros, entre outros, até ser acolhido pela VideoFilmes poucas semanas antes de sua produção. O orçamento foi completo pelo Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP), parceira de Coutinho há 15 anos, e pela distribuição da Rio Filmes. E o curioso é que foi a primeira vez que Coutinho e Salles se encontraram, dois dos maiores documentaristas brasileiros, e o resultado não poderia ser melhor. "Eu já dirigi vários documentários, mas talvez nada tenha me deixado tão orgulhoso quanto o fato de produzir este", assegura Salles.Babilônia 2000, antes da estréia que acontece agora, já participou do projeto Odeon Dia Um - Cinema a Um Real, que aconteceu em 1º de janeiro no cinema da Cinelândia, no Rio. Antes ainda, os moradores da favela da Babilônia tiveram um sessão especial no dia 31, numa tela ao ar livre montada no morro. "Choveu bastante e foram poucas pessoas assistir ao filme, mas disseram ter gostado", recorda o diretor. Mas não há o que se lamentar. Se a lenda diz que chuva em dia de casamento é sinal de prosperidade na união, a sessão no morro só garante o carinho que o público, mais uma vez, deve nutrir pelas documentações do mestre Coutinho.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.