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Corpos em convulsão marcaram o ano de 2017 no cinema

Da epopeia de ‘Dunkirk’ ao minúsculo ‘Corpo Elétrico’, um tema se impôs

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 06h00

Foi um ano de belos blockbusters. Tem gente que jura que o êxito planetário de Mulher Maravilha, de Patty Jenkins, está na origem do empoderamento feminino que desencadeou as denúncias de assédio que abalaram e não param de repercutir em Hollywood. No Brasil, o público preferiu Liga da Justiça e, se em ambos Gal Gadot, a Wonder Woman, cumpre seu papel de unir os grupos, cabe sempre ao homem resolver a parada, o que sugere uma reafirmação do machismo por trás do aparente feminismo.

+++Gal Gadot volta a interpretar a Mulher-Maravilha em 'Liga da Justiça' e quer mudar Hollywood

Liga da Justiça é um grande espetáculo marcado pela dor da perda que atingiu, na vida, o diretor Zach Snyder – sua filha suicidou-se. Guardiões da Galáxia 2 é pura alegria – uma aventura intergaláctica com seres bizarros e uma trilha de tirar o chapéu. Fechando o ano dos blockbusters, Star Wars – Os Últimos Jedi, de Rian Johnson, mostrou a força dos outsiders. A esperança dos rebeldes está na dupla Rey/Finn, que veio das camadas mais baixas do universo, mas o novo episódio da saga, ao mesmo tempo que os celebra, encerra o sonho de um grande amor birracial eclodindo por toda a galáxia. É bom iniciar a retrospectiva do ano que se encerra com filmes de grande espetáculo, que arrebentaram na bilheteria e, no limite, para quem quiser ver, não deixam de ser obras autorais, com ideias que vale discutir.

O ano foi crítico, no sentido de que espelhou a crise. Os números não mentem. O mercado dos filmes brasileiros encolheu 40%, apesar do aumento de títulos. O de filmes estrangeiros aumentou 5% e, se no cômputo geral, 2017 está fechando com aumento do faturamento – em torno de R$ 2,7 bilhões, 3% a mais que em 2016 –, o público diminuiu 2,2%. Neste ano, 181 milhões de brasileiros foram aos cinemas, um pouco menos que em 2016. Os motivos são os mais variados – desde a pirataria (virou moda baixar os filmes para ver no celular, no computador, no tablet), mas com certeza passa também pela segurança – o público só vai aos shoppings, que privilegiam os estrangeiros (e onde o ingresso é mais caro).

Por enquanto estamos falando de mercado, mesmo que Liga da Justiça e Guardiões da Galáxia 2 (de James Gunn) sejam grandes filmes, grandes aventuras. Os dez mais de 2017 formam outra lista. O maior filme do ano, não só do cinemão, foi Dunkirk, a guerra segundo Christopher Nolan, mas será mesmo um filme de guerra, sobre a guerra? Porque os temas dessa reconstituição de um dos episódios mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial talvez não sejam tanto as perdas e o heroísmo, que o filme tem, mas essa forma de refletir sobre os labirintos do tempo, que tanto fascinam o criador – A Origem, Interestelar – e a desconstrução/reconstrução do grande espetáculo, que Nolan vive colocando em xeque. O que se ganha com toda essa parafernália de recursos, se o que interessa a Nolan é algo muito mais íntimo, minimal? John Ford: Fomos os Sacrificados. A grandeza dos derrotados.

Se um filme tão grande, em termos de recursos, vem em primeiro, o que se segue de maneira alguma remete à pequenez. Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, não é só sobre a saída dos operários numa fábrica do Bom Retiro ou sobre uma geração à deriva, boiando no mar da vida. Há, no filme, desde o título, uma discussão sobre a liberdade dos corpos, e dos gêneros. Corpo Elétrico tem tudo a ver com Divinas Divas, de Leandra Leal, e com Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga. O corpo em movimento de Antônio Pitanga, a negritude – um tema explosivo do ano, desde a premiação da Academia de Hollywood até os debates no Festival de Brasília –, uma nova celebração da arte do encontro. Pitanga e seus amigos, suas mulheres. Pitanga e o Brasil, que ele colocou na tela.

Discutem-se os gêneros humanos, e os cinematográficos. Ficção, documentário. O tema reinou, soberano, no cinema brasileiro em 2017. Corpo Elétrico é ficção, com um tanto de documentário. Divinas Divas é documentário com muito de ficção – esses homens que se fizeram mulheres, personagens deles mesmos. Pitanga, também ele personagem. João Moreira Salles teceu uma ficção sobre os filmes domésticos que sua mãe rodou na China de Mao com uma câmera amadora. Misturou com o célebre Maio de 68 para refletir sobre a revolução, que amávamos tanto, e o vazio que corrói a alma da esquerda. Da China à França, ele chega ao Brasil. No Intenso Agora. Eliane Caffé ficcionalizou um mundo no universo da ocupação urbana de Era o Hotel Cambridge. Um filme de militância, de processo.

O Brasil, a Amazônia, vistos pelo olhar estrangeiro. A Cidade Perdida de Z, a grande aventura de uma busca nunca alcançada, por James Gray. A aventura humana é inesgotável. O verdadeiro filme feminista talvez tenha sido Além das Palavras, de Terence Davies. Como uma mulher, numa sociedade de homens, levando uma vida obscura, tocou tão fundo com sua arte nas grandes e graves questões humanas? Cynthia Nixon foi (sim!) a maior atriz do ano, como a poeta Emily Dickinson. As palavras também estão no centro de O Jovem Karl Marx, de Raoul Peck. A grande aventura de dois pensadores, Marx e Engels, que sonharam um manifesto que ainda assombra o mundo. Falta só mais um filme para dez. O coreano Na Praia Sozinha à Noite, do nouvelle vague Hong Sangsoo? Não, o chileno Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio. A transexual Daniela Vega resume a questão dos corpos (e gêneros) em 2017.

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