'Corpo' faz suspense com história sobre ditadura militar

Filmes de estréia na direção de Rossana Foglia e Rubens Rewald tem Leonardo Medeiros como protagonista

Alysson Oliveira, da Reuters,

08 de maio de 2029 | 11h22

Legistas podem dar bons personagens no mundo da ficção, por explorarem a fronteira muitas vezes frágil entre a vida e a morte. Esse potencial dramático é usado no longa brasileiro Corpo, que estréia em São Paulo nesta sexta-feira, 30, e traz como protagonista um médico dessa especialidade, interpretado por Leonardo Medeiros.  Veja também:Trailer de 'Corpo' Ele é Artur, um legista que parece ter mais tato para lidar com os mortos do que com os vivos, tamanha a sua falta de habilidade para o trato social. Mas isso não o preocupa, pois ele está acomodado em sua rotina, dividindo o tempo entre o trabalho e cuidando dos pais. Para introduzir uma dose de ficção no seu cotidiano, Artur gosta de inventar histórias sobre as pessoas que examina, bem como as condições em que morreram. E também gosta de imaginar a vida dos que ainda não morreram, como as pessoas que ele encontra nas ruas, no metrô - o que parece lhe dar um status acima de todos. Tudo muda quando chegam à mesa de Artur um punhado de ossos e um corpo encontrado em uma vala comum. A supervisora do departamento (Chris Couto) acredita que o corpo é mais recente que a ossada, cuja origem pode estar relacionada com o regime militar. Surge uma discordância entre os dois porque, para Artur, o corpo tem cerca de 30 anos e, por alguma razão misteriosa, se manteve preservado. O legista terá pouco tempo para provar sua teoria - se não for identificado em um dia, o corpo será enterrado como indigente. Com muita sorte, ele encontra pistas nos porões da ditadura de que o cadáver era de uma guerrilheira. Por meio do nome dela, descobre que tem uma filha (Rejane Arruda) e encontra a garota - muito semelhante à suposta mãe, aliás. Aos poucos, Corpo vai sendo montado como um quebra-cabeças. A garota, chamada Fernanda, diz não ser filha da guerrilheira e que sua mãe (Louise Cardoso) está viva. Esta, por sua vez, é um homônimo da falecida, Teresa Prado Noth. Os diretores e roteiristas estreantes, Rossana Foglia e Rubens Rewald, trabalham com uma idéia bastante comum em literatura e cinema: o duplo. Nessa jornada, nunca fica muito claro o que é real, lembrança ou delírio de Artur. O passado surge dialogando com o presente. Assim, discute-se não a ditadura em si, mas suas implicações, anos depois de seu fim. O trabalho dos atores é o que sobrevive melhor em Corpo. Embora viva um personagem calcado em clichês - um legista sombrio, tal qual sua sala, e solitário, como os corpos que examina -, Medeiros consegue transformar Artur num ser humano.

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