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'Corpo Elétrico’ fala sobre amor e liberdade sem fazer análises morais

Filme de Marcelo Caetano é um dos grandes de 2017

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2017 | 06h00

Há um momento de Corpo Elétrico em que o protagonista Elias – interpretado por Kelner Macêdo – é interpelado pelo dono da fábrica. Elias é jovem e talentoso. Trabalha com confecção numa pequena indústria. E o cara quer saber dele como se vê daqui a cinco anos. Elias desconversa. Não se vê. É um hedonista que vive à deriva – o final metaforiza esse sentimento. Representa, senão toda, parte da juventude brasileira que sabe que vive à margem das estruturas de poder e não precisa do reconhecimento oficial para se legitimar. Elias leva a vida, ou é levado por ela, mas movido a libido. A energia sexual, o desejo, aciona esse corpo elétrico.

Elias é gay e, por mais força que tenha hoje o cinema LGBT no País – e há um livro sobre o assunto, O Cinema Que Ousa Dizer Seu Nome, de Lufe Steffen –, será uma pena se Corpo Elétrico ficar confinado ao gueto. É o Boi Neon deste ano. Um dos grandes filmes brasileiros de 2017. Em julho, abriu o Festival de Cinema Latino-americano. Houve aquela vaia, e tudo o mais. Marcelo Caetano, o diretor, subiu ao palco com seu elenco de trans. Foi contundente: “Branco já falou demais aqui, toma” e passou o microfone para um jovem ator negro que fez um discurso veemente contra a reforma da Previdência – e foi aplaudidíssimo pelo público.

Vale relatar porque existe uma insatisfação, uma inconformidade, e Corpo Elétrico dá vazão a isso. O filme já nasceu com essa ideia. “Ser uma discussão sobre liberdade e amor, não fazer análises morais. Ter uma frontalidade com o personagem, sem nunca julgá-lo.” Isso foi elaborado no roteiro que, como atitude, teve influências de Hilton Lacerda – de quem Caetano foi colaborador em Tatuagem –, mas, como estrutura, resultou da parceria com Gabriel Domingues. Caetano queria um personagem da periferia, trabalhador de uma fábrica. Chegou a pensar num metalúrgico. “Fomos a fábricas do ABC, mas aí, pelo perfil libertário sexual do personagem, passei a procurar outra coisa. Fui parar no Bom Retiro, e coincidiu de ver uma saída da fábrica. Toda aquela gente na rua. Me bateu uma coisa. O cinema nasceu com os Lumières e a saída da fábrica. E eu pensei que poderíamos recomeçar.”

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Apesar do roteiro, Corpo Elétrico é um filme de processo. “Tem muito improviso que, para mim, é coisa séria e precisa de muito ensaio. Peguei a estrutura do roteiro e levantei o filme cena a cena com os atores. Provocava, e anotava tudo o que eles acrescentavam. Tenho essa experiência de montar elencos. E de trabalhar como assistente de direção. O Kelner é ator de teatro de João Pessoa, descobri quando selecionava o elenco do Aquarius (de Kleber Mendonça Filho). Não o selecionei para aquele filme, mas me mantive em contato porque sabia que era um ator com quem gostaria de trabalhar.”

Um exemplo interessante do método de Marcelo Caetano é a cena – emblemática – da saída da fábrica. “Fizemos mais de 20 takes e ela foi muito preparada, porque exigia certa coreografia. Então, houve uma noite só para fazer a marcação, e fiz anotações e enviei um e-mail enorme, com as indicações do que deveria ser a cena e o que esperava de cada um. Lembro que escrevi: ‘Estudem a cena que vamos filmar. E vamos repetir quantas vezes forem necessárias, até sair como imagino’. E foi o que a gente fez.” 

Marcelo difere de outros diretores porque continua com alma de cinéfilo e vê muitos filmes, sem medo de se contaminar. “No caso do Corpo Elétrico, vi muito (Pedro) Almodóvar e (Maurice) Pialat e fiz com que todo mundo visse A Nos Amours, que era o que queria, como mise-en-scène. Vimos Um Estranho no Lago, que foi fundamental, e conversamos muito sobre internet. Hoje em dia, você encontra tudo. Travestis se filmando, famílias no fim de semana, muitos bêbados, muita gente transando. O viral é a produção audiovisual do povo, então era importante que a gente estudasse essa forma de autorrepresentação para que o filme chegasse aonde queria como veracidade.”

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