Corpo Aberto
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'Corpo Delito', de Pedro Rocha, vai contra o discurso de ódio

Documentário ‘nas bordas’, o belo longa examina desejo de liberdade de apenado com tornozeleira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2017 | 06h00

Havia, na Mostra Aurora deste ano, em janeiro – a Aurora é a mostra competitiva na cidade mineira de Tiradentes –, dois filmes com personagens que usavam tornozeleira. Baronesa, de Juliana Antunes, venceu o troféu Barroco. O outro é Corpo Delito, de Pedro Rocha, que estreou em 20 salas de todo o País na quinta, 7, integrando o programa Vitrine Petrobrás.

Pedro veio do jornalismo. Conta que o Corpo Delito começou com cara de um filme do alemão Harun Farocki. “Aquela coisa da câmera como postura política. A entrada do Diego redefiniu o projeto”, avalia o diretor. Diego Hoefel é roteirista de ficção. Pedro e ele estabeleceram a premissa básica. Um filme sobre a violência urbana e a questão da segurança. Investigaram possíveis personagens desse universo. Um policial, um segurança privado, etc. Chegaram à fábrica-escola, que aparece logo no começo.

Os caras trabalham, executam uma tarefa cansativa, mecânica. Um deles é Ivan, que logo em seguida aparece conversando com a psicóloga. Ele não aguenta mais ser monitorado – Ivan usa a tornozeleira. De casa para a fábrica, da fábrica para a casa. A rotina familiar transparece na cena em que assistem à TV. A psicóloga diz que é uma questão de tempo, e ele ser livre de novo. “Na verdade, isso já ocorreu e o Ivan está em liberdade”, conta o diretor.

Essa nova fase do Ivan daria outro filme? “Daria, mas não sei se teria interesse em fazer”, confessa Rocha. Corpo Delito transita entre o documentário e o cinema direto. “Não houve um roteiro formal, mas fomos criando cenas para o Ivan e o Netto, que se revela muito carismático. O Ivan queria cortar o cabelo, o Netto contou uma revista policial que sofreu. Filmamos essas cenas, montamos e fomos preenchendo com outras que íamos improvisando.”

Rocha diz que está interessado em criar ficções. “O real aprisiona a gente.” A ficção abre possibilidades – novos personagens, novos rumos para a vida dos Ivans deste mundo. Um filme com essa cara, esse personagem, vai na contracorrente do discurso de ódio que permeia as redes sociais, em que ‘bandido bom é bandido morto’. “Não sei se o filme está sendo ‘entendido’, mas temos encontrado um olhar compassivo para a situação do Ivan. O filme existe para isso – é preciso resistir ao ódio.”

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