Coreano discute a dualidade budista no filme O Arco

Símbolo do masculino e do feminino, o arco, que dá título ao novo filme do diretor coreano Kim Ki-duk, expressa a dualidade das paixões que ocupa o centro das preocupações do autor de "Casa Vazia". "Falar do masculino e do feminino é discutir o próprio conceito budista da evolução que conduz ao nirvana", ele disse ao Estado. "A busca da perfeição envolve o reconhecimento dos opostos que se atraem e completam, para o equilíbrio do universo. Ao mesmo tempo, falar da ambivalência que cada um de nós carrega é uma forma de deduzir que o que nos fortalece muitas vezes nos enfraquece, e vice-versa."Mais de 20 anos depois de sua morte (em 1999), o francês Robert Bresson continua ditando as cartas e influenciando alguns dos maiores entre os jovens talentos do cinema atual. O cineasta de Taiwan Tsai Ming-liang acredita, como ele, que só a incomunicabilidade extrema pode franquear ao homem o caminho da graça. Só no isolamento, o homem consegue se comunicar. Não menos radical, Kim Ki-duk viu "Mouchette, A Virgem Proibida", no qual a pequena protagonista, na derradeira cena, deixa-se cair no lago e a queda é redentora. Equivale a uma subida ao céu, para usar a expressão de Luis Buñuel. O movimento de queda como forma de ascender se faz presente no cinema de Kim Ki-duk, em filmes como "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera e Samaritan Girl".Este último, que concorreu em Berlim, em 2004, trata de um problema social grave da Coréia contemporânea, a prostituição juvenil. A protagonista é uma garota à qual, aparentemente, não falta nada, mas ela se prostituiu para juntar dinheiro para uma hipotética viagem que nunca realizará. "O Arco", que estréia nesta sexta-feira, integrou a seleção de Cannes no ano passado. Não trata de um problema dessa dimensão, mas o sexo é igualmente o motor da narrativa. Há esse velho que vive com a garota no barco. Logo nas primeiras cenas o vemos marcar no calendário a evolução dos dias que faltam para o seu casamento com a menina, quando ela atingir a maioridade. Sem nenhuma possibilidade de escolha, ela lhe está prometida. O barco é freqüentado por homens que chegam do continente para pescar. Qualquer tentativa de se aproximar da garota provoca a hostilidade do velho, mas surge esse jovem e, aí, a luxúria dá lugar aos sentimentos. Ambos se envolvem. O velho tenta reagir, usando sua habilidade com o arco, mas a garota, a quem ele ensinou a técnica de disparar, terá a última palavra.Em "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera", Kim Ki-duk já falou sobre como é viver segundo duas poderosas culturas religiosas - a budista e a católica, já que esta última é forte na Coréia e ele freqüentou um internato religioso gerido por padres. O tema do sacrifício é forte em seu cinema. A samaritana mata-se, o garoto de Casa Vazia arrisca-se pela mulher amada. E, quando ele invade as casas, não é para roubar, mas para colocar ordem em todas elas. O próprio arco, como signo visual, carrega profunda conotação sexual. "O arco tem uma conformação que evoca a genitália feminina, mas a flecha é predominantemente masculina", ele analisa.Conjugar os dois no mesmo elemento visual equivale a discutir o masculino e o feminino que toda pessoa carrega. "Estamos tratando aqui de sentimentos e desejo", diz o diretor. "Há uma gama muito grande emoções. Ciúme, inveja, insegurança. Embora os personagens pertençam a diferentes gerações, o velho e o garoto têm o mesmo sentimento de posse e a garota vai reagir a isso." A maneira como o velho a liberta, no desfecho, coloca em discussão o egoísmo do personagem, mas Kim Ki-duk não faz obra de moralista. "Sei que estou conduzindo o olhar do espectador, mas quero que ele se sinta livre para refazer o filme à sua maneira." Mesmo não sendo tão bom quanto Casa Vazia, o novo Kim Ki-duk reafirma a importância do autor coreano. É um belo filme. O Arco (Hwal, Cor. do Sul-Jap/ 2005, 90 min.) - Drama. Dir. Kim Ki-Duk. 16 anos. Cinesesc - 15 h, 17 h, 19 h, 21 h (6.ª a dom. não haverá 15h). Unibanco Arteplex 9 - 13 h, 14h50, 16h40, 18h30, 20h10, 22 h (sáb. tb. 0h). Cotação: Ótimo

Agencia Estado,

11 de agosto de 2006 | 11h22

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