Cor ameaça monotonia da mancha urbana em 'Cidade Cinza'

Grafiteiros lutam para colorir as ruas em narrativa prazerosa de documentário

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2013 | 11h00

São Paulo é uma cidade opressiva. Cinzenta. Não tem mar. Esmaga seus moradores com seu trânsito indescritível, seu traçado caótico, sua feiura brutal, o excesso de ruído. Desse modo, e com grandes planos aéreos da metrópole assustadora quando vista de cima, começa o filme. Vemos uma mancha urbana monótona, pontiaguda, com edifícios que brotam fora de controle, ao deus-dará. As vozes que acompanham as imagens, em puro paulistês, falam da opressão das ruas. E dizem do desejo de colocar um pouco de cor nesta, com perdão do clichê, selva de asfalto e concreto armado.

 

 

Assiste-se com grande prazer ao documentário Cidade Cinza, de Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo. Essa turma que deseja colocar cor nas ruas é formada pelos grafiteiros armados de talento e latas de spray. Desenham, pintam, fazem arte. E nem sempre são reconhecidos. Pelo contrário, muitas vezes são acusados de emporcalhar ainda mais a cidade. O filme é a história deles, em especial de Os Gêmeos – Otávio e Augusto Pandolfo – e outros: Nina, Nunca, Zefix, Finok e Ise, em sua busca de espaço e reconhecimento.

O epicentro, digamos, é um painel numa muralha do centro, apagado na gestão de Gilberto Kassab. Com a lei da cidade limpa, o painel foi considerado sujeira e recoberto por uma “higiênica” tinta cinza. Para ornar com o resto do ambiente, vizinho à bucólica Avenida 23 de Maio. A luta para reocupar com arte aquele espaço é uma espécie de simbologia do grupo. Uma simbologia vitoriosa, afinal de contas. O painel foi repintado, sob os auspícios da Prefeitura, numa espécie de mea culpa por não saber distinguir entre arte e rabisco. O próprio prefeito, e o secretário da Administração da Sé, Andrea Matarazzo, compareceram ao ato quando o painel ficou pronto.

Ok, este é o lado oficial da história. Mas que, por outro lado, revela seu aspecto mais aventureiro quando os rapazes e moças dizem do prazer que é sair pela cidade munidos de seus sprays em busca de um lugar para pintar. Um deles diz que o prazer de grafitar só se compara ao sexo. É um ato de liberdade. E de uma técnica que se vai construindo à medida em que vai sendo feita. O grafite pode ser visto como uma das manifestações do hip-hop, da cultura urbana de periferia, ao lado do break, dos DJs. Arte pop do século 21. Goste-se ou não.

O fato é que os painéis alegremente coloridos dos Gêmeos, com sua pegada algo surrealista e fantástica acabou tendo reconhecimento internacional. E, como se sabe, no Brasil essa é a condição necessária, suficiente e indispensável para o sujeito começar a ser levado a sério. Somos de tal forma colonizados e dependentes da opinião externa que precisamos desse aval dos outros para acolher nossos artistas. E Os Gêmeos, que pintaram painéis no exterior, sobretudo na Europa e nos EUA, ganharam esse aval.

De modo que hoje sua obra já pode ser objeto de conversas entre galeristas e críticos de arte. Alguns deles são ouvidos, mas sente-se que essas entrevistas não são para dar respaldo a uma manifestação que se sustenta por si só. Estão lá para comentar exatamente essa dignidade artística conquistada pelos grafiteiros após haverem sido tratados como poluidores da metrópole. Como se esta primasse pela higiene e pela beleza, conspurcadas por desenhos exibidos em paredes nuas.

Cidade Cinza tem, como filme, um ritmo gostoso, embalado pela música de Criolo e Daniel Ganjaman. Seus melhores momentos não estão tanto nos depoimentos (embora alguns sejam muito interessantes), mas no registro bem montado do acúmulo de imagens e cores, que vão cobrindo a cidade com seu manto, iluminando-a e humanizando-a até onde isso é possível.

Arte de guerrilha, o grafite não se acomoda muito a reconhecimentos oficiais e a discursos de políticos.

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