Paris Filmes
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Construindo pontes com o cinema

O produtor Noberto Pinheiro Jr. fala sobre 'Abe', produção brasileira falada em inglês que esteve no Festival de Zurique, e 'Pacificado', dirigido por um americano no Rio e vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián

Mariane Morisawa, especial para O Estado

23 de outubro de 2019 | 17h36

ZURIQUE – O produtor brasileiro Noberto Pinheiro Jr. passou pelo 15º Festival de Zurique como representante de Abe, primeira produção em inglês de Fernando Grostein Andrade, rodada em Nova York. Mas tinha outro motivo para celebrar: acabava de vir do Festival de San Sebastián, em que Pacificado, rodado pelo americano Paxton Winters no Rio, tinha levado a Concha de Ouro. “Foi uma enorme surpresa”, disse Noberto Pinheiro Jr. em entrevista ao Estado, em Zurique. Ambos estão na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Abe é um projeto antigo e do coração de Fernando Grostein Andrade, filho de mãe judia e pai católico. “Ele se inspirou em sua própria história”, disse Pinheiro Jr., que entrou na produtora Spray durante a pré-produção do longa, que tem coprodução da Gullane.

No filme, rodado em Nova York, o protagonista, interpretado por Noah Schnapp (de Stranger Things), é filho de uma judia e de um palestino muçulmano e tem dificuldades de navegar as diferenças culturais e religiosas que frequentemente provocam brigas entre seus avós. Fã de comida, ele acha que esse é o caminho da conciliação, principalmente depois de descobrir as fusões feitas pelo chef Chico (Seu Jorge).

“A decisão de fazer um filme em inglês é que o nosso conteúdo viajasse mais”, explicou o produtor. “Foi desafiador rodar em Nova York, que conhecíamos de visitar, mas não fazendo cinema”, disse. “Mas aprendemos muito e agora sabemos como é.”

O filme, que passou no Sundance Festival em janeiro, é o primeiro de uma série, ele espera. A Spray tem outros 9 projetos prioritários em inglês. Esse novo caminho também ajuda num momento em que o futuro do audiovisual brasileiro está incerto. “E a gente é muito favorável a co-produzir. Gostamos de colaborações.”

No caso de Pacificado, era quase o oposto: um americano rodando em português, no Rio. Paxton Winters morou anos no Morro dos Prazeres, onde filmou, chegando a abrir uma escola de audiovisual. A produção usou várias pessoas da comunidade na equipe e no elenco. O filme chegou até Noberto Pinheiro Jr. quando os produtores Marcos Tellechea e Paula Linhares o procuraram, com dificuldades de financiar a pós-produção, já na esteira da crise no audiovisual.

“Decidi investir dinheiro próprio, meu e da minha esposa”, disse Pinheiro Jr., explicando que a Spray entrou como produtora associada mais no final do processo, assim como o cineasta Darren Aronofsky. “Investi porque achei que o filme tinha potencial por contar uma história de favela por um ângulo diferente”, disse.

Em Pacificado, Tati (Cássia Nascimento), de 13 anos, tenta se conectar com o pai, Jaca (Bukassa Kabengele), ex-chefe do tráfico na comunidade, que acabou de sair da prisão, bem durante a Olimpíada no Rio e o projeto de “pacificação” das favelas. “O longa passa pelo tráfico, mas essa não é a trama. É um filme de amizade, no fim das contas”, disse Pinheiro Jr. “Eu costumo dizer que a gente vive um apartheid em 2019. E acho importante humanizar a favela, porque tem pessoas ali tentando fazer as coisas direito, só que elas não têm oportunidade”, completou o produtor, enfatizando que tanto ele pessoalmente quanto a Spray querem fazer apenas projetos com relevância e impacto social. 

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