Consagração em Cannes não tornou Anselmo unanimidade

Diretor de 'O Pagador de Promessas', vencedor da Palma de Ouro, sofreu diversas críticas da ala do Cinema Novo

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

07 de novembro de 2009 | 13h46

Numa época em que ainda não havia televisão, Anselmo Duarte foi o galã do Brasil. Astro de cinema, número um de duas experiências distintas, em estúdios e cidades diferentes - a Vera Cruz, em São Paulo, mais exatamente São Bernardo do Campo, e a Atlântida, no Rio -, ele era a personificação do homem bonito, bem sucedido, íntegro. Mas a sua vida não foi fácil e nem ele virou uma unanimidade. Convertido em diretor, recebeu a maior honraria internacional atribuída a um filme e diretor brasileiros - a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1962, atribuída a O Pagador de Promessas. Tendo chegado ao topo, não virou uma unanimidade e, pelo contrário, desencadeou uma onda de inveja e críticas negativas que o amarguraram. Por décadas, viveu ressentido, estrangeiro na própria terra. As homenagens e o reconhecimento tardio terminaram por aplacar sua ira. Anselmo Duarte Bento morreu na madrugada deste sábado, 7, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde estava internado desde o dia 28. Havia sofrido um AVC. Tinha 89 anos.  

 

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Criado sem pai, caçula de sete irmãos, Anselmo Duarte Bento nasceu em Salto, em 1920. Foi engraxate, ajudante de barbeiro, datilógrafo e dançarino - no Cassino São Vicente e, depois, no Cassino da Urca. No segundo, conheceu o lendário Orson Welles, que filmava no Brasil It's all True, mas não foi uma boa relação. Welles teria se engraçado com sua amante e teria até recorrido à intimidação para separar o casal. Com a ajuda do amigo Jorge Dória, Anselmo foi ser figurante no longa Inconfidência Mineira, de Carmen Santos. Sua altura (quase 1,90 m) e boa estampa chamaram a atenção do assistente Watson Macedo e do fotógrafo Edgar Brasil. A carreira cinematográfica deslanchou e Duarte participou até de uma co-produção brasileiro-argentina. De volta ao Brasil, Watson Macedo, já consolidado como diretor na Atlântida, convidou-o para fazer Carnaval no Fogo. O resto é história.

 

Anselmo Duarte já sonhava ser diretor e condicionou sua participação à possibilidade de reescrever o roteiro. Macedo aprovou as idéias do ator e roteirista e permitiu que ele dirigisse dois números musicais. Nos anos seguintes, seu prestígio se consolidou, ele virou ídolo do público, especialmente o feminino. Anselmo assinou um documentário, Fazendo Cinema, foi estudar na Europa, no IDHEC, o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos de Paris. Foi quando foi a Cannes pela primeira vez. No livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, ele contou que jurou a si mesmo voltar a Cannes participando da competição. Sua meta era ganhar a Palma.

 

O primeiro longa foi uma chanchada, Absolutamente Certo!, mas com elementos diferenciados das demais. Atraído pelo texto da peça de Dias Gomes, ele comprou os direitos de O Pagador de Promessas, mas introduziu mudanças na história que não agradaram ao autor. O produtor associado Aníbal Massaini também queria Mazaropi no papel de Zé de Burro, mas Anselmo não abria mão de ter Leonardo Villar, que havia feito o personagem no palco. Se o filme tivesse dado errado, Anselmo com certeza teria sido crucificado como o campônio ingênuo que carrega uma cruz para agradecer a recuperação de seu burro. Ele foi crucificado de qualquer maneira.

 

Em pleno alvorecer do Cinema Novo, os diretores do grupo e os críticos que apoiavam o movimento não engoliram que um ator ligado ao velho cinema tivesse vencido em Cannes. Criaram-se mil histórias para diminuir a vitória. O júri teria optado por sua solução de compromisso porque não conseguia se decidir entre os grandes diretores que também concorriam - Luiz Buñuel, Robert Bresson, Michelangelo Antonioni etc.

 

Anselmo fez seu terceiro longa, outra adaptação teatral - de Vereda da Salvação, de Jorge de Andrade, que ele próprio considerava seu filme mais maduro. Vereda foi a Berlim e, por pouco, não ganhou o Urso de Ouro. Anselmo jurava que um crítico brasileiro, integrando o júri, teria sido o maior inimigo de seu filme. Os anos seguintes foram carregados de amargura. Anselmo sentia-se injustiçado. Ele voltou a ser ator e teve o melhor papel de sua carreira como o policial sádico de O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person. Voltou à direção, mas Quelé do Pageú não obteve o sucesso alcançado e Anselmo iniciou uma trajetória irregular, dirigindo episódios de pornochanchadas, um policial sem brilho como O Encarte e uma adaptação apenas correta de Um Certo Capitão Rodrigo, de Erico Verissimo. Para os detratores, era a confirmação de que não era um autor e sua Palma de Ouro havia sido um equívoco.

 

Anselmo Duarte meio que se isolou. Foi viver em Salto. Fez mais alguns papeis como ator, preparou roteiros para o que seria sua grande volta, mas ela não ocorreu. Os livros - Adeus, Cinema e o volume da Coleção Aplauso -, a homenagem que recebeu da Mostra de Cinema apaziguaram seu espírito atormentado. Impossível negar que ele foi o maior galã do Brasil, que ganhou a única Palma de Ouro do cinema brasileiro. E O Pagador é um filme belo, forte. A oposição entre a fé simples do homem do povo e a religião institucionalizada da Igreja, o desenho dos personagens secundários, a captação da vida como ela é (era) no Pelourinho fazem a riqueza do filme, que tem momentos antológicos. O movimento quando a câmera segue de baixo o movimento da cruz que é carregada pela multidão, entrando na igreja, faz parte das experiências inesquecíveis do cinema brasileiro. Anselmo Duarte foi um personagem raro. Mitômano.

 

Era um grande contador de histórias que você nunca sabia se eram reais ou produto de sua imaginação. Em plena ditadura militar, ele deu uma entrevista ao "Pasquim" que se tornou célebre. Leila Diniz, também entrevistada pelo "Pasquim", falou de sexo e libertou as mulheres do jugo da sua submissão ao machismo. Anselmo escancarou sua potência representando, talvez, o machista que não era. Ele foi um grande sedutor. Teve casos com algumas das mulheres mais belas do Brasil. Sua morte encerra toda uma era do cinema brasileiro e ela ocorre quando Carlos Manga, um dos reis das chanchadas da Atlântida está sendo homenageado no Festival do Amazonas.

 

As chanchadas podiam não ser o cinema social sonhado pela geração do Cinema Novo, mas já colocavam a cara do Brasil na tela. Anselmo Duarte foi, por décadas, a melhor referência que o homem brasileiro tinha de si mesmo.

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