Congresso discute os caminhos do cinema brasileiro

Desde os anos 30, com a pioneira Convenção dos Produtores Brasileiros, os encontros para discutir os grandes temas da cinematografia nacional foram sempre uma constante no País. Congresso, mesmo, houve só dois. No primeiro, em 1952, discutiram-se assuntos como a definição de filme brasileiro e a fundação de uma distribuidora única para a produção nacional. No ano seguinte, no segundo congresso, a pauta privilegiou o que seriam as medidas para a defesa e o crescimento do cinema como parte integrante do patrimônio cultural nacional. Quase 50 anos depois, está para começar o 3.º Congresso do Cinema Brasileiro.O evento começa quarta-feira à noite, em Porto Alegre, promovido pela Fundação do Cinema Gaúcho. Deve reunir, no Hotel Continental, que vai funcionar como QG, até sábado à noite, cerca de 150 delegados que representarão todos os segmentos ligados à produção cinematográfica no Brasil. "Há muito para se discutir", garante o presidente desse 3.º Congresso, o cineasta Gustavo Dahl. No recente Festival de Fortaleza, ele fez uma prévia. "Foi mais um bate-bola", explica. Mas Fortaleza serviu para definir o que serão os grandes temas do encontro de Porto Alegre. Alguém duvida quais sejam? "Discutimos o papel do Estado, o futuro do mercado inteiro e a relação entre cinema e televisão".Entre os debatedores de Fortaleza estavam Rodrigo Saturnino Braga, da empresa Columbia, a major americana que mais tem investido no cinema brasileiro, o diretor Cacá Diegues, o próprio Gustavo Dahl e Wilson Cunha, do Canal Brasil. Mudanças ? Em 9 de junho, numa entrevista para o jornal O Estado de S.Paulo (Caderno 2 - Cultura & Patrocínio), o secretário do Audiovisual, José Álvaro Moisés, sintetizou o que o governo quer mudar na Lei do Audiovisual, para estimular a produção cinematográfica. Moisés estabeleceu um programa básico de quatro pontos - a quebra do mecanismo que permite combinar o desconto de investimentos audiovisuais como despesa operacional e incentivo fiscal; a transformação do artigo 3.º da lei, que prevê a participação de empresas estrangeiras na produção; a criação de fundos de investimentos no audiovisual por cotas para permitir a entrada de pequenos investidores e pessoas físicas no financiamento do ator; e a mudança da lei da cota de tela, para torná-la mais efetiva.Moisés e Dahl estão de acordo num ponto - o audiovisual e o cinema, em especial, não podem ser tratados como uma indústria qualquer. Nesse mundo globalizado, em que há uma demanda crescente por imagens, o Brasil precisa produzir seu cinema até como forma de fortalecimento da identidade nacional. A produção e o consumo de imagens possuem hoje, mais que nunca, valor estratégico. A secretaria apóia o congresso de Porto Alegre e Moisés já disse que espera que dele surjam propostas concretas, para serem incorporadas ao projeto de mudança da Lei do Audiovisual que o governo encaminha em agosto ao Congresso.Dahl diz que há consenso, na classe cinematográfica, de que a discussão sobre o audiovisual engloba hoje vários fatores. Além de econômica e cultural, ela tem de passar obrigatoriamente por esse caráter estratégico de que se reveste e que torna, como conseqüência, obrigatória a presença do Estado no setor. "O Estado precisa posicionar-se", diz. Em sua análise, ele retrocede aos anos 70, quando havia 4 mil salas no País e não era tão grande o divórcio entre cinema e TV. Na fase da Embrafilme, o cinema brasileiro conheceu grandes sucessos - foi a época dos recordes dos Trapalhões e de Sônia Braga (Dona Flor e Seus Dois Maridos permanece como o maior sucesso nacional de todos os tempos).O começo dos anos 80 ainda foi bom. A grande crise começou nos 90, com o desmantelamento da Embrafilme e de todos os organismos de controle do mercado e incentivo à produção no governo Collor. A criação da Lei do Audiovisual desempenhou papel decisivo na retomada da produção, mas criou expectativas que não se confirmaram. Entre os pontos que precisam ser discutidos em Porto Alegre, há dois que são fundamentais - se o cinema brasileiro quiser ser forte no próprio mercado, dominado massivamente pela produção americana, tem de criar mecanismos de exposição para os seus produtos. Ou seja, o cinema brasileiro tem de aparecer na mídia, especialmente na televisão. "Nosso cinema está hoje elitizado" diz Dahl. "Atinge somente o topo da pirâmide social, um pouco porque o ingresso é caro, mas também porque o filme brasileiro está relegado a uma espécie de gueto - passa em poucas salas e o público precisa garimpar as informações sobre ele". Outro problema muito sério diz respeito à relação entre cinema e TV, não apenas sobre a presença do filme brasileiro na televisão, mas também a essa nova discussão que pretende transformar a TV em parceira habilitada a buscar recursos para a produção. Dahl cita os números: "A TV fatura R$ 4 bilhões com publicidade, o cinema movimenta R$ 38 milhões". Ele considera mais justo que a TV seja incentivada a produzir com esse dinheiro todo que já tem e não estimulada a buscar ainda mais recursos num mercado cada vez mais reticente, em face das últimas crises, em investir no cinema. Dahl cita, a propósito, uma frase de Cacá Diegues em Fortaleza. Cacá tem feito algumas parcerias bem-sucedidas com a televisão. A TV Cultura co-produziu "Veja Esta Canção" e a Globo mostrou "Dias Melhores Virão", antes mesmo que o filme fosse exibido nos cinemas. Parceiro da televisão, Cacá é um crítico feroz das novas propostas do governo. Diz que é a primeira vez que houve falar numa transfusão em que o paciente em situação precária fornece o sangue, em vez de recebê-lo. Num e-mail para o jornal, Cacá destacou a importância do congresso de Porto Alegre como fórum de discussão. E reforçou o que Dahl também falou: "Esse encontro tem tudo para ser decisivo, mas vai depender muito da imprensa; é preciso que tudo o que for discutido em Porto Alegre chegue até a sociedade". Essa transparência poderá ser verificada na Internet. Já existe um site - www.congressocinema.com.br -, com informações básicas que serão atualizadas diariamente. E Dahl anuncia: o congresso poderá transformar-se numa organização não-governamental (ONG) a serviço do cinema brasileiro.

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