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‘Confronting a Serial Killer’ recupera histórias de mulheres esquecidas

Série mostra esforço de Jillian Lauren de contar a história das mulheres assassinadas pelo maior serial killer americano

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

28 de abril de 2021 | 17h30

Quando a jornalista Jillian Lauren ouviu falar de Samuel Little, que estava preso pelo assassinato de três mulheres em Los Angeles, identificou-se com as vítimas. No passado, Lauren também sofreu violência doméstica e tentativa de assassinato por estrangulamento, o método usado por Little. Ela resolveu falar com o assassino e recuperar a história daquelas mulheres esquecidas. Acabou fazendo com que Little, que não admitia nem os crimes pelos quais tinha sido condenado, confessasse o ataque a outras 90 mulheres, um número que o torna o maior serial killer americano. 



Lauren, que mora em Los Angeles com o marido Scott Shriner, baixista da banda Weezer, e os dois filhos adotados, publicou uma matéria na revista New York e atraiu a atenção de Joe Berlinger, que ficou famoso com o documentário O Paraíso Perdido: Assassinatos de Crianças em Robin Hood Hill (1996) e, mais recentemente, esteve envolvido com Conversando com um Serial Killer - Ted Bundy (2019), Jeffrey Epstein: Podre de Rico (2020) e Cena do Crime - Mistério e Morte no Hotel Cecil (2021). Assim nasceu Confronting a Serial Killer, série em cinco partes que está disponível na plataforma Starzplay

“Eu fiquei fascinado que alguém com o passado de Jillian tivesse conseguido fazer esse cara confessar, um sujeito que atuou durante 40 anos e escapou inúmeras vezes da Justiça”, disse o diretor Joe Berlinger em entrevista ao Estadão. “Ninguém parecia muito preocupado em pegá-lo. E isso para mim joga luz sobre o preconceito sistêmico contra pessoas não brancas, mulheres, trabalhadoras do sexo. É inacreditável que ele tenha vivido tanto tempo solto. E, no fim, foram mulheres que reconquistaram a narrativa”, completou o diretor, referindo-se à detetive Mitzi Roberts, do Departamento de Polícia de Los Angeles, e à promotora Beth Silverman, que finalmente prenderam e conseguiram a condenação de Samuel Little, além de Jillian Lauren. 

Durante décadas, Little acumulou uma extensa folha corrida, com roubos, estupros, tentativas de assassinato e assassinatos, sem nunca despertar a desconfiança de se tratar de um serial killer e sem que ele passasse muito tempo na prisão. A explicação é uma só: suas vítimas eram mulheres pobres, boa parte delas negras, viciadas em drogas e/ou trabalhadoras do sexo.

 


São mulheres “menos mortas”, como diz Jillian Lauren na série. O objetivo da jornalista, que está escrevendo um livro sobre o assunto, é recuperar a história destas vítimas esquecidas, mostrando o impacto do crime em suas famílias e, em alguns casos de sobreviventes, nelas mesmas. Laurie Barros, por exemplo, foi jogada para fora do carro num lixão, mas seu processo não deu em nada por causa do viés do sistema. “Ironicamente, quando começamos o projeto estava acontecendo o debate e os protestos após a morte de George Floyd nos Estados Unidos. Então, a série é muito atual, mesmo que não tenhamos planejado assim”, explicou Berlinger. 

O chamado “true crime” (crime real, em livre tradução) tem ganhado um espaço grande nos serviços de streaming, conquistando espectadores do mundo todo e colecionando polêmicas. Esses programas, muitas vezes, são acusados de glorificar serial killers e de explorar o sofrimento das vítimas e sobreviventes, em sua maioria mulheres. Berlinger não acha que o fascínio seja novo. “Para mim, é mais uma questão de mídia. Houve uma explosão na produção de documentários em todas as áreas”, disse ele. No século 19, lembrou, vendiam-se ingressos para execuções nos Estados Unidos. Nos anos 1950, havia centenas de revistas de detetive e crime e romances pulp fiction. “Há muito ‘true crime’ irresponsável sendo feito”, disse Berlinger. “Mas nós sempre nos perguntamos, ao iniciar um projeto, se há uma razão maior. Eu já recebi críticas também, porém sempre consigo explicar por que tomei a decisão de fazer.” 

Em Confronting a Serial Killer, fica clara a frieza de Samuel Little nas gravações de Jillian Lauren. Também é evidente o sofrimento da jornalista ao ouvir os detalhes de seus crimes. Mas, acima de tudo, o foco da série é condenar um sistema que tanto produz alguém como Little quanto ignora e desqualifica as suas vítimas por causa da cor da pele, da classe social ou do trabalho que fazem para se manter. Confronting a Serial Killer se esforça para recuperar a humanidade dessas mulheres invisibilizadas que eram irmãs, mães, netas, sobrinhas, amigas, seres humanos que não mereciam o destino que tiveram.

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