Pierre. Geert van Rampelberg: entre o emprego e o amo
Pierre. Geert van Rampelberg: entre o emprego e o amo

Conflitos territoriais e de amor estão em 'A Terra Vermelha'

Filme fala do luta entre multinacional da celulose e trabalhadores na região de Misiones, na Argentina

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2017 | 05h00

A Terra Vermelha, do argentino Diego Martínez Vignatti, é uma história de luta. Da principal luta contemporânea, a que se trava em várias frentes e envolve os interesses do capital contra os princípios elementares da humanidade. Os liberais dizem que não há por que existir essa contradição e que tais interesses podem muito bem confluir e conciliar os propósitos do lucro com os do progresso social. O resto das pessoas não acredita muito nessa conversa. 

No caso, o que se tem é uma multinacional que explora a madeira na região de Misiones, na Argentina. Derruba árvores nativas para plantar eucaliptos. Usa agrotóxicos de maneira indiscriminada e contamina solo, água e a própria população. As pessoas ficam doentes e bebês nascem deformados. Mas a companhia é lucrativa e “gera empregos”, o mantra de sempre. 

O personagem problemático é o belga Pierre (Geert van Rampelberg), capataz da empresa, durão, mas que consegue manter bom relacionamento com os trabalhadores. Entre outras coisas, treina um time de rúgbi local e tem perfil de líder. E, outra, liga-se a uma moça local, a professora Ana (Eugenia Ramírez Mori). Ocorre que Ana é uma das líderes do movimento dos camponeses contra a empresa estrangeira. 

Há também outras questões locais. Como de hábito, os governantes põem-se a serviço dos mais fortes. Desse modo, estabelece-se, também, um conflito entre os trabalhadores e o governador da província, que manda a polícia reprimir greves e bloqueios de estradas. 

O filme trabalha, portanto, em vários níveis. Mescla romance a luta social. Faz denúncia enquanto conta uma história de amor complicada pelas circunstâncias. Não são níveis incompatíveis, mas certo simplismo se instala na narrativa. Vignatti, que é radicado no Bélgica, estabelece outro paralelo – com o jogo do rúgbi, que é tático, coletivo, depende de força e de um sentido de equipe muito apurado para dar certo. Funciona como metáfora da luta dos trabalhadores contra a empresa e o Estado. As ligações entre um plano e outro (o esportivo e o social) são estabelecidas sem grandes sutilezas. 

Nos primeiros planos de A Terra Vermelha vemos uma câmera rente à natureza, aplicada numa filmagem de tipo sensorial. Próxima às árvores, às águas, aos rostos humanos, provoca imersão do espectador na cena rústica da narrativa. Esse cuidado inicial se perde um pouco ao longo da história. 

Não que se torne descuidado, mas dilui um tanto a inspiração visual à medida que se aprofunda nas contradições da história. Fica mais chapado, mas não chega a se banalizar do ponto de vista visual. 

Para ser um grande épico político, A Terra Vermelha deveria trabalhar com personagens de maior complexidade. O único com mais matizes é Pierre, dilacerado entre o emprego que lhe dá dinheiro e prestígio, e o amor a Ana e aos trabalhadores. Mesmo assim, suas oscilações de lado às vezes parecem um tanto artificiais. Os outros personagens conformam-se a um modelo preestabelecido e não apresentam curva dramática. O filme se ressente da falta de arestas num tema sustentado pelo conflito de interesses e suas asperezas. É digno, porém com dificuldades para alçar voo.

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