Confira os filmes que marcaram 2006

A cada ano aumenta a quantidade defilmes lançados, e nem sempre a qualidade acompanha esse ritmo.Mas também, a cada balanço de fim de ano constatamos que boasatrações não faltaram e, garimpando, somos capazes de compor umaamostra interessante do que de melhor houve no ano.Em termos numéricos, os lançamentos se aproximaram dos 400longas-metragens, dos quais 72 brasileiros. Uma cifra importantede participação nacional que, no entanto, não se refletiu nabilheteria. Apenas a comédia de Daniel Filho, Se Eu Fosse Você atingiu números expressivos, 3,6 milhões de espectadores. Osoutros patinaram: os filmes são feitos, mas não chegam aopúblico. Falta resolver essa equação. E é uma pena que não sejaresolvida porque a seleção cinematográfica brasileira nãodecepcionou como a outra. Entre os títulos colocados àdisposição do público, podem-se pinçar, sem dificuldade,exemplares muito bons. A começar por aquele que talvez seja omelhor de 2006, O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, que venceu oFestival de Havana, ganhou o Prêmio APCA e consagrou suaprotagonista, Hermila Guedes, a atriz do ano no Brasil.O Céu de Suely vai ao Brasil rural e flagra o modo de vida dagente simples, mas a personagem principal poderia ser qualquerum de nós, com suas aspirações e sonhos a realizar, e suamaneira particular de concretizá-los. A exemplo de outros, é umfilme de silêncios, de ambientação e de deslocamento, como se asimensas dimensões do Brasil atraíssem os cineastas e osinspirassem a retratar o movimento interno no País. Também vaipor aí Árido Movie, de Lírio Ferreira, filme de estrada àbrasileira, que reinventa um sertão com paleta fotográficainspirada no Cinema Novo. Também o singelo Tapete Vermelho, deGal Pereira, se ambienta no mundo rural, em terna evocação deMazzaropi e seu universo cinematográfico.Pode ser que o filme brasileiro mais emocionante de 2006 tenhasido O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de CaoHamburguer, com sua revisita aos anos da ditadura Médici pelosolhos do menino que apenas deseja ser goleiro e acompanhar aCopa do México em companhia de pai e mãe. A recriação do bairrodo Bom Retiro é tocante, com seu retrato da sociedademultiétnica e solidária, um Brasil que poderia ter sido e nãofoi.Provavelmente a medalha de mais radical fique com CrimeDelicado, de Beto Brant, embora tenha A Concepção, de JoséEduardo Belmonte, em seus calcanhares disputando esse título.Acontece que Crime Delicado, adaptado da novela de SérgioSant?Anna, é mais redondo e incisivo que A Concepção. Ambosespreitam o subsolo do comportamento e da mente humana, põem emxeque a superficialidade dos bons modos e do politicamentecorreto. São os filmes de risco, no fio da navalha, sem os quaisnenhuma cinematografia anda para frente. Nesse sentido, emboraem outra faixa, caminha também a animação de Otto Guerra, "Wood& Stock", sobre os anos loucos de sexo, drogas e rock, em chavenão nostálgica e debochada.Já na radicalidade da ternura, o destaque fica para Eu meLembro, de Edgard Navarro, um Amarcord baiano que refaz, comtoques de ficção, a trajetória de vida do diretor, dos anos 1950até os 1970. Quando um artista como Navarro recompõe de formaficcional a sua vida, fala também da nossa, daí a universalidadedesse memorialismo áspero e comovente, como é bem o caso de Eume Lembro.Dos 72 longas brasileiros lançados, 41 foram de ficção, 30documentários e uma animação (Wood & Stock). O número ésignificativo, já a fatia de público conquistado - 12% dosingressos - deixa a desejar.O número de documentários deve ser comentado. Trinta títulos, amaioria de boa feitura, mapeando aspectos diversos do País, e umdeles excepcional - Estamira, de Marcos Prado -, imersão nouniverso da esquizofrenia e também das precárias condiçõessociais da personagem. Destaque para Mamute Siberiano, deVicente Ferraz, sobre a odisséia cinematográfica de MikhailKalatozov, que, na época de aproximação entre Fidel e Kruchev,foi à ilha para filmar o hoje clássico Soy Cuba,incompreendido em seu tempo.Estrangeiros Quanto às produções estrangeiras, é precisofiltrar sem dó para destacar o que houve de interessante noperíodo. E então surgem as pepitas. Se tivesse de escolher omais belo filme do ano ficaria com Amantes Constantes dofrancês Philippe Garrel, estudo em preto-e-branco sobre o legadodo maio-1968. O mais intenso seria Volver, de Pedro Almodóvar,com Penelope Cruz e um time de atrizes de tirar o fôlego, dandovida ao solidário universo feminino do cineasta. O mais engajadoseria A Criança, dos irmãos belgas Dardenne, que enxergam aviolência da questão social sob o verniz da Europa civilizada. Eo mais inquietante seria Cachê, que o austríaco Michael Hanekefilmou na França, e no qual detecta, como poucos, o mal-estardas relações humanas na afluente União Européia.Woody Allen, que não encontra mais mercado em seu país, foifilmar na Grã-Bretanha seu Match Point - Ponto Final, ensaiosobre o crime e o acaso na vida das pessoas. Cinema dematuridade, de altíssima qualidade. Dos Estados Unidos, asurpresa veio com George Clooney, o bonitão de talento econsciência social, que, para falar de Bush, evoca o tempo domacarthismo em Boa Noite, e Boa Sorte, e também está, comoator, no complexo Siriana. Spike Lee fez um bom entretenimentocom O Plano Perfeito, e Tommy Lee Jones dirige e atua nomelhor de todos os americanos do ano, Três Enterros, seudiálogo com o México e com o universo rural de um país áspero eviolento. Em sua retaguarda, Lee Jones teve o roteiristaGuillermo Arriaga, de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel.Muita gente não gostou de Os Infiltrados, de Martin Scorsese.Mas outro tanto entende que, fazendo seus filmes gângsteres,Scorsese é o cineasta que disseca, como nenhum outro, o coraçãoselvagem da América.Argentina Para quem se queixa de que a produçãolatino-americana não chega por aqui, um consolo: 13longas-metragens argentinos estrearam em São Paulo, com algumassurpresas como Buena Vida Delivery, de Leonardo di César, eCrônica de uma Fuga, de Adrián Caetano. Mas o melhor foi OGuardião, de Rodrigo Moreno, sobre o cotidiano alienado de umguarda-costas de um político.Entre os hispânicos, a jóia da coroa é o cubano Suíte Havana,de Fernando Pérez, o maior cineasta da ilha. Numa históriacomovente, contada quase sem diálogos, é a vida mesma doshabitantes da velha San Cristóbal de la Habana, em sua carne,que desfila diante dos olhos do espectador. Aquele tipo de filmeque provoca vontade de agradecer ao cineasta pelos momentos debeleza que nos proporcionou.

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