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Confira as estreias da semana, com destaque para o cinema brasileiro

Mas além do poderoso 'Augusto Matraga', há também um Polanski sensual e provocativo, 'A Pele de Vênus'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2015 | 15h00

O cinema brasileiro domina em número e qualidade as estreias da semana. O poderoso Matraga de Vinicius Coimbra entra para ser um dos grandes filmes do ano, mas Roman Polanski também não está para brincadeira e, em A Pele Vênus, oferece um papel excepcional a sua mulher, Emmanuelle Seigner. Dois grandes filmes numa só semana? E por que só dois? Orestes, de Rodrigo Siqueira, nas bordas da ficção e do documentário utiliza a tragédia grega – Ésquilo – para refletir sobre democracia e Justiça no Brasil em crise de confiança.

Cativas – Presas pelo Coração, de Joana Nin

Documentário que conta as histórias de sete mulheres envolvidas com presidiários. Há uma frase dita por uma das entrevistadas que resume o espírito do filme. “Ele não era nada do que queria para mim, hoje é tudo que eu quero.” Mais que crônicas de ‘amor bandido’, o filme investiga solidões, preconceitos e levanta questões como – numa sociedade excludente, que futuro essas pessoas que sofrem, e sonham, podem estar construindo?

Evereste, de Balthasar Kormakur

Depois de abrir o Festival de Veneza, entra em cartaz o longa baseado na história real de expedição ao cume mais alto da Terra e que terminou mal, em 1996. O filme baseia-se em relatos de sobreviventes e desenvolve várias linhas dramáticas – o confronto entre duas concepções de alpinismo, nos personagens de Jason Clarke e Jake Gyllenhaal; o embate entre os homens e a natureza e a montanha que, no desfecho, é mais forte; e a grande questão que permanece irresolvida. Por que as pessoas pagam caro e até morrem para tentar chegar ao topo do Evereste? O que há de mítico na escalada, e na montanha? Filmado nos Alpes, muito mais seguros, o longa tem imagens impressionantes, mas o 3-D ainda apresenta problemas de ordem técnica. Nos planos mais distantes, a proporção dos humanos faz com que se assemelhem a bonecos.

A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra

Vencedor do Festival do Rio em 2011, o filme adaptado do conto de Guimarães Rosa em Sagarana estreia com quatro anos de atraso para ser um dos melhores do ano. No intervalo, o diretor adaptou Shakespeare, Macbeth – A Floresta Que Se Move –, que estreia em 5 de novembro. Já havia a versão de Roberto Santos, de 1965, com sua fama de clássico do Cinema Novo. Com todo respeito pelo ator que fazia, originalmente, o papel, a versão de Coimbra consegue ser ainda melhor. E o elenco todo, não apenas João Miguel, cresce na tela com intensidade. As cenas de João Miguel e José Wilker, como Joaozinho Bem-Bem, a fidelidade canina de Irandhyr Santos como Quim e a participação de Chico Anysio como o velho (e poderoso) coronel, tudo é, ao mesmo tempo, mágico/mítico e realista. Lula Carvalho é o diretor de fotografia e seu pai, Walter Carvalho, opera a câmera (na mão) na cena do duelo final. A força telúrica das imagens intensifica o drama, mas é a força da prosódia roseana que o filme resgata, em sua plenitude.

Hotel Transilvânia 2, de Genndy Tartakovsky

No novo filme da série animada, o Conde Drácula faz de tudo para despertar o lado ‘monstro’ do neto. Quem viu o tyrailçer deve ter rido bastante. Quem vir o filme se divertirá ainda mais.

Orestes, de Rodrigo Siqueira

O diretor do poderoso Terra Deu, Terra Come volta com outro documentário, e agora nas bordas da ficção. Por meio do julgamento simulado de um ex-guerrilheiro que era agente duplo da ditadura militar, Siqueira reencena a Orestéia, de Ésquilo. A tragédia lhe fornece os elementos para refletir sobre o estatuto legal da Justiça e a fragilidade da democracia – a grega, que se consolidava na época do julgamento de Orestes, e a brasileira, no contexto atual da crise de confiança que assola o País. Presente na trama como tribunal e coro, um grupo de psicodrama põe na tela contradições da sociedade brasileira. Existem desde as mães de jovens brutalmente sacrificados pela polícia – por nenhum outro crime que o de ser pobres e ter a pele escura – até a que defende a ação preventiva e acredita que bandido bom é bandido morte. O problema – quem são os bandidos? Um filme político que faz pensar. Um relato que enriquece o próprio cinema com sua soma de linguagens. Será muito interessante se o espectador resolver fazer a ponte entre a experiência desse filme e os amores bandidos de Cativas, que também estreia nessa semana.

A Pele de Vênus, de Roman Polanski

Há muito tempo – na verdade, desde O Pianista, que lhe valeu o Oscar de direção de 2002 –, Polanski não fazia um filme tão bom. Baseado na peça Vênus em Visom, de David Ives, que foi encenada por Hector Babenco com Bárbara Paz, o filme mostra como uma atriz que chega atrasada numa audição consegue convencer diretor de teatro e lhe dar o papel na montagem de peça de Sacher Masoch. Polanski aborda relações de sexo e poder e oferece a Emmanuelle Seigner, com quem é casado, um papel que ela assume com paixão. O filme poderia chamar-se ‘A Vingança de Uma Mulher.’ E não deixa de ser ‘A Vingança de Uma Atriz’. Durante tanto tempo Emmanuelle foi só a mulher de Polanski. Aqui mostra a extraordinária atriz, além de mulher sensual, que é.

O Samba, de Georges Gachot

Diretor de belos documentários sobre Maria Bethânia e Nana Caymi, o francês Gachot usa Martinho da Vila como cicerone numa viagem pela história do samba (e da escola Unidos de Vila Isabel). Como diz Martinho, dependendo da forma como canta, ele consegue fazer seu público rir e chorar. O filme também faz isso com suas imagens e sons de bastidores no barracão da escola, do desfile na Sapucaí e de um show em que o Martinho reúne diferentes artistas que cantam samba sem ser, necessariamente, sambistas. Ney Matogrosso é exemplar. Veio do teatro e conta como o samba lhe interessa como ‘drama’, mais que ritmo.

Um Senhor Estagiário, de Nancy Meyers

Uma delícia de comédia sobre aposentado que volta à ativa, trabalhando como aposentado na firma de moda de uma jovem empresária. Robert De Niro e Anne Hathaway possuem uma química muito interessante e a diretora e roteirista Meyers brinca com imagens tradicionais que o público tem deles, em obras como Taxi Driver, de Martin Scorsese, e O Diabo Veste Prada. Como Anne disse na entrevista que concedeu ao Estado – o filme é leve e divertido, mas aborda questões relevantes sobre a melhor idade e a participação feminina no ‘mercado’. Será uma pena se o público não se ligar nesse subtexto, ao mesmo tempo social e humano.

O Vinho Perfeito, de Ferdinando Vicentini Orgnani

Na trilha de Mondo Vino, Um Bom Ano e Sideways – Entre Umas e Outras, outro filme que usa o vinho para tentar decifrar o mundo. Bancário conhece homem misterioso que lhe confere um dom. Torna-se enólogo reputado, mas, no auge do sucesso, é acusado de matar a mulher. O filme é cheio de referências que o cinéfilo de carteirinha poderá identificar (e compartilhar). Já o enigma do assassinato não chega a ser muito interessante e a mistura de humor e suspense fragiliza-se.

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